
Pemba, Moçambique, 24 fev 2022 (Lusa) – Há cada vez mais deslocados com fome, abrigados da guerra em casa de Maincha Momade, em Pemba, capital de Cabo Delgado, província do norte de Moçambique mergulhada numa crise humanitária.
Há oito meses, a deslocada de 47 anos mostrou à reportagem da Lusa como é que 48 pessoas sobreviviam num espaço precário com duas divisões e um quintal, mas agora o número subiu para 56.
“A situação continua porque recentemente atacaram na ilha de Matemo e eu tive de acolher [quem fugiu de lá] porque não há outra maneira”, senão a solidariedade entre habitantes, explicou.
Matemo é uma das ilhas do arquipélago das Quirimbas, alguns quilómetros ao largo de Cabo Delgado, zona de paisagens paradisíacas (ilhas onde até já houve empreendimentos turísticos), mas sujeita à violência armada.
Os residentes fogem, deixando tudo para trás, e como em qualquer parte do mundo, a comida é a principal necessidade: “comemos de manhã um ‘mata-bicho’ (pequeno-almoço) e depois esperamos pelo jantar”.
Esperar é uma forma de poupar comida: “se cozinhamos de dia, de noite não teremos o que comer e as crianças vão chorar”, descreve, mostrando a cozinha vazia, sem panela ao lume.
Até chegar a noite, “engana-se o estômago com uma mandioca seca”.
Yatima Tauabo, 54 anos, chefe de quarteirão, é uma das responsáveis pelo registo de deslocados e diz que há cheques mensais de 3.600 meticais (50 euros) por cada 10 pessoas deslocadas, num trabalho do governo local que envolve as autoridades dos bairros e agências humanitárias.
Os cheques dão acesso só a produtos alimentares em estabelecimentos identificados.
A casa de Maincha recebe apenas dois cheques para alimentar 56 pessoas e a chefe reconhece que devia receber, pelo menos, cinco.
Só que a ajuda não chega para todos e Tauabo aponta para outro ponto do bairro: “aquela casa tem pessoas de Meluco e uma idosa”, todos ainda sem cheques, referiu, apelando às autoridades para que “continuem a ajudar” os deslocados, na esperança de lhes matar a fome.
Maincha fugiu de Macomia quando a vila sofreu o primeiro ataque em 2020 e vive “de favor” numa casa do bairro de Paquitequete, onde desembarca a maioria das famílias que fogem do conflito no norte e centro da província.
Tal como há oito meses, queixa-se da falta de redes mosquiteiras para evitar a picada que transmite a malária.
“Aqui tem rede, ali também, mas aqui já não tem”, mostra no interior da casa, apontando os lugares onde dormem crianças e idosos, no chão.
Dos 56 deslocados, 10 são crianças em idade escolar, mas só há quatro uniformes para ir às aulas, como pedem as regras.
A partilha da mesma roupa faz parte das rotinas: “uma volta da escola, entrega logo o uniforme a outra, já que há diferenças nos horários e dias de estudo”, disse Maincha, mostrando dois pares de uniformes num estendal, lavados com água de um vizinho, porque na sua casa o fornecimento foi cortado por falta de pagamento.
A única água odiada é a chuva da noite, porque a maioria dos 56 que partilham a casa tem de dormir no quintal, ao relento, por falta de espaço no interior.
Lá dentro, a prioridade foi dada aos mais novos e idosos, do lado de fora ninguém dorme como deve ser nas noites mais carregadas da época chuvosa (de outubro a abril), em que o quintal fica alagado.
“Não, não há espaço para todos ali dentro”, conclui Maincha, que mesmo assim acolhe mais deslocados.
A organização Médicos Sem Fronteiras (MSF) disse no início do mês que Cabo Delgado viveu no final de janeiro um “novo pico de ataques e violência”, que causou “mais uma vaga de milhares de pessoas deslocadas em apenas algumas semanas”.
Segundo a Classificação Integrada de Segurança Alimentar seguida pelas entidades humanitárias, 1,3 milhões de pessoas enfrentam insegurança alimentar nas províncias de Cabo Delgado, Nampula, Niassa e Zambézia, como acontece na casa de Maincha.
Desde julho de 2021, uma ofensiva das tropas governamentais com apoio do Ruanda a que se juntou depois a Comunidade do Desenvolvimento da África Austral (SADC) permitiu o aumento da segurança, recuperando várias zonas onde havia a presença dos rebeldes, mas os ataques continuam em zonas dispersas da província e de regiões vizinhas.
O conflito já provocou mais de 3.100 mortes, segundo o projeto de registo de conflitos ACLED, e mais de 859 mil deslocados, de acordo com as autoridades moçambicanas.
A província de Cabo Delgado é rica em gás natural, mas, aterrorizada desde 2017, por rebeldes armados, sendo alguns ataques reclamados pelo grupo extremista Estado Islâmico.
RYCE // VM
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