
Maputo, 12 set 2025 (Lusa) — As autoridades moçambicanas alertaram hoje para cheias de “grande magnitude” no país e inundações em pelo menos quatro milhões de hectares agrícolas durante a próxima época chuvosa, que se inicia em outubro em Moçambique.
“Nesse segundo período [da época chuvosa], que é janeiro, fevereiro e março, nós achamos que vamos ter chuvas, vamos ter cheias de grande magnitude, classificamos de um regime alto, sobretudo na bacia do Incomáti, Maputo e Limpopo”, disse Agostinho Vilankulos, diretor nacional de Gestão de Recursos Hídricos, à margem do Fórum Nacional de Antevisão Climática para a época chuvosa 2025/2026, em Maputo.
Segundo o responsável, as barragens de países vizinhos de Moçambique, entre os quais África do Sul e Essuatíni, estão a 99% do nível de armazenamento e, por isso, com pouca capacidade de encaixe, situação que obrigará ao escoamento e consequentes inundações no país.
“Se as barragens estão cheias, então, não tem capacidade de encaixar, então, qualquer chuva que caia nos países vizinhos, transforma-se em escoamento e vem para o nosso país”, alertou Vilankulos, apontando os municípios da Matola, Maputo, Beira e Quelimane como de “elevado risco de ocorrência de inundações”.
O diretor nacional de Gestão de Recursos Hídricos avançou que se prevê que o setor agrícola seja também afetado pelas chuvas, com pelo menos quatro milhões de hectares em risco.
“Estamos a pensar que cerca de quatro milhões de hectares de terras potencialmente agrícolas estão em risco e, deste número, também estamos a incluir cerca de sete mil hectares na cidade de Maputo”, afirmou Agostinho Vilankulos.
No mesmo evento, Isaías Raiva, climatologista do Instituto Nacional de Meteorologia, referiu que se vão registar chuvas em todo o país entre os meses de janeiro e março de 2026, com grande impacto na zona sul de Moçambique, além de “alguns períodos secos”.
Já Américo José, do Instituto Nacional de Saúde moçambicano, prevê uma maior incidência de malária e diarreias nas províncias de Nampula, no norte, Zambézia e Tete, no centro do país, durante a época das chuvas, considerando que as mudanças climáticas representam uma “ameaça direta e indireta para o setor da saúde”.
Hiten Jantilal, diretor nacional da Agricultura, por sua vez, anunciou medidas preventivas face à aproximação das chuvas, entre as quais recomendações aos agricultores sobre “quando devem iniciar as sementeiras e como minimizar riscos de pragas e doenças”.
Em 03 de setembro, o Presidente de Moçambique, Daniel Chapo, pediu às populações de Sofala, no centro do país, para abandonarem as zonas propensas a inundações durante a época chuvosa, ao entregar 840 casas construídas pela fundação Tzu Chi para vítimas do ciclone Idai.
“Temos que sair das zonas de risco, zonas de risco são aquelas zonas que quando chega a época chuvosa a qualquer altura podem encher, e sempre que há cheias aqui em Búzi, quando as pessoas estão nas zonas de risco, para lhes tirar não é fácil depois de encher”, disse Daniel Chapo.
Moçambique é considerado um dos países mais severamente afetados pelas alterações climáticas, enfrentando ciclicamente cheias e ciclones tropicais durante a época chuvosa, que decorre anualmente entre outubro e abril.
Só entre dezembro e março últimos, na última época ciclónica, Moçambique foi atingido por três ciclones, incluindo o Chido, o primeiro e mais grave, no final de 2024.
O número de ciclones que atingem o país “vem aumentando na última década”, bem como a intensidade dos ventos, alerta-se no relatório do Estado do Clima em Moçambique 2024, do Instituto de Meteorologia de Moçambique, divulgado em março.
Os eventos extremos provocaram pelo menos 1.016 mortos em Moçambique entre 2019 e 2023, afetando cerca de 4,9 milhões de pessoas, segundo dados do Instituto Nacional de Estatística.
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