MNE polaco defende UE contra crescente tentação de “Polexit”

Varsóvia, 26 fev 2026 (Lusa) – O Ministro dos Negócios Estrangeiros (MNE) polaco emitiu hoje no parlamento um forte apelo pró-União Europeia, em resposta ao crescente número de opiniões soberanistas, num país onde a tentação de um “Polexit” deixou de ser tabu.

“Não pode haver uma Polónia livre, próspera e segura sem uma União Europeia forte”, sustentou Radoslaw Sikorski no seu discurso anual sobre a política externa do Governo.

Segundo Sikorski, a pertença da Polónia à União Europeia (UE), de que é membro desde 2004, é ainda mais importante no contexto da “incerteza geoestratégica e dos dramáticos acontecimentos ligados à guerra russo-ucraniana”.

A integração europeia da Polónia constitui uma resposta às “preocupações em torno das relações do Velho Continente — e da Polónia, em particular -, com os Estados Unidos de Donald Trump”, sublinhou o ministro.

De acordo com um inquérito recente do Instituto United Survey, quase um cidadão polaco em quatro se declara a favor da saída do país da UE, seguindo o exemplo do “Brexit” do Reino Unido, processo iniciado em consequência de um referendo realizado em 2016, em que 51,9% da população britânica se pronunciou pelo abandono do bloco europeu, e que foi concluído em janeiro de 2020, após um longo processo negocial.

Tal perspetiva é partilhada na Polónia por quase metade (47%) dos eleitores do principal partido da oposição, Lei e Justiça (PiS, nacionalista), que esteve no poder entre 2015 e 2023.

O PiS, cujo líder, Jaroslaw Kaczynski, e vários outros membros hoje boicotaram o discurso do ministro dos Negócios Estrangeiros, continua a ser uma força significativa na política polaca, a par dos partidos da extrema-direita nacionalista e do Presidente eurocético, Karol Nawrocki.

Sem as instituições europeias, insistiu Sikorski no parlamento, “o egoísmo de uns entrará em conflito com o egoísmo de outros”, com consequências “perigosas para a segurança e o desenvolvimento da Polónia”.

“Ou permanecemos unidos, ou os mais poderosos devorar-nos-ão”, alertou, acrescentando: “Em Moscovo, regozijam-se com cada manifestação de histeria antieuropeia”.

O chefe da diplomacia polaca criticou a oposição nacionalista, muitas vezes motivada por uma desconfiança histórica em relação à Alemanha, pelas suas tentativas de “assustar os polacos” com uma visão da UE que “levaria a um pretenso controlo de Berlim sobre Bruxelas e Varsóvia”.

“A integração europeia ajuda-nos a lidar com o ‘desafio alemão'”, argumentou Sikorski.

“É melhor falar com uma Alemanha forte como parceira dentro da União que com uma Alemanha forte, sem os vínculos e as normas que lhe impõe a UE”, prosseguiu.

Num comentário ao discurso do ministro, o Presidente Nawrocki criticou-o por não ter levantado a questão das reparações de guerra, que a direita nacionalista, incluindo ele próprio, exige insistentemente à Alemanha que, de uma perspetiva jurídica, há muito considera o assunto encerrado.

O MNE polaco referiu ainda os benefícios financeiros obtidos da adesão à UE: em 20 anos, “Varsóvia recebeu” um total de quase 268 mil milhões de euros, e fez 99 mil milhões de euros de “contribuições para o orçamento europeu”, o que resulta num “saldo líquido superior a 167 mil milhões de euros”.

Segundo Sikorski, o custo potencial de um “‘Polexit’ suave” causaria, nos primeiros cinco a dez anos seguintes, uma “queda do Produto Interno Bruto (PIB) de entre 4% e 7%”, “uma redução dos salários de até 8%” e “uma queda nas exportações de carne e laticínios de entre 45% e 50%”.

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