MNE palestiniana aconselha eleitores israelitas a rejeitar “genocidídio dos vizinhos”

Lisboa, 16 set 2026 (Lusa) — A ministra dos Negócios Estrangeiros palestiniana aconselha os israelitas que vão eleger o próximo Governo em outubro a escolher a paz, em vez de “uma guerra genocida contra os vizinhos” e uma “sucessão de inseguranças” nas suas próprias vidas.

“Qualquer mudança no sentido de uma perspetiva mais positiva em relação aos palestinianos, enquanto seres humanos e como pessoas que têm direitos, é aceitável e bem-vinda”, defendeu Varsen Aghabekian, em entrevista à agência Lusa, durante uma visita a Lisboa.

A poucas semanas das legislativas em Israel, em 27 de outubro, a ministra da Autoridade Nacional Palestiniana (ANP) receia porém que não tenha ouvido ainda “ninguém falar muito abertamente sobre a solução de dois Estados” entre as lideranças opositoras ao Governo chefiado por Benjamin Netanyahu aliado com a extrema-direita.

A maioria das sondagens tem colocado o partido maioritário, Likud, ligeiramente atrás do Yashar, do antigo chefe das forças armadas Gadi Eisenkot, embora nenhum deles consiga o controlo do Knesset (parlamento), nem com a soma dos blocos pró-governamentais ou de oposição.

“As caras podem mudar, qualquer coisa é melhor do que o que existe atualmente, mas as mesmas pessoas podem voltar”, alerta a chefe da diplomacia da ANP, preferindo “uma mudança de política” que contrarie o “controlo sobre o território” palestiniano e o “sufoco para sempre” dos seus habitantes.

A ideia de uma “Grande Israel”, que sugere estar a ser encetada na região por Netanyahu, “tem de ser travada”, prossegue a governante, observando que um país que quer viver “em paz e segurança” tem primeiro de “respeitar os direitos das pessoas à sua volta”.

Até porque “a história ensina que as pessoas continuarão a sua luta até serem livres”, comenta, e “os palestinianos não vão ceder, vão continuar a lutar” pelo direito ao seu Estado.

“Se eu fosse israelita, procuraria [votar em] pessoas que me aproximem do que a paz implica e não do que a guerra implica: uma sucessão de inseguranças”, sublinha a ministra palestiniana.

Embora considere “natural e humano” que os eleitores israelitas pensem mais nos seus interesses do que nos palestinianos, a política da ANP recomenda que pensem no seu país posicionado “como um Estado respeitoso, normal e que deseja viver em segurança” na região.

“Não se pode travar uma guerra genocida contra os vizinhos, não se pode viver com essa mentalidade de insegurança”, insiste, até porque, do outro lado das fronteiras, os habitantes “também precisam da sua segurança e isso só será possível se acreditarem que dois Estados podem coexistir em paz”.

Varsen Aghabekian não tem “qualquer dúvida” de que Israel se comporta “desde o primeiro dia da ocupação” como um “estado pária”, ao aplicar “uma política colonialista, de anexação e que visa apagar o outro”, que era anteriormente executada “de forma discreta e mais devagar”, mas que “hoje se manifesta abertamente”.

Como exemplo, refere que as atuais autoridades israelitas usam o nome bíblico Judeia e Samaria para designarem a Cisjordânia, “dizendo ao mundo, de forma muito clara, que ‘esta é a nossa terra'” e os palestinianos têm de ser deslocados.

“Isso é muito evidente não só para os palestinianos, mas também para os países vizinhos, porque o ‘Grande Israel’ abrange outras partes de vários países”, refere, alertando para a atual ocupação militar israelita no sul do Líbano e da Síria.

Em ambos os casos, Telavive justifica as ocupações com a criação de uma “zona de segurança” face a forças hostis, após os ataques do grupo islamita palestiniano Hamas em 07 de outubro de 2023, que desencadearam a guerra na Faixa de Gaza e marcaram o início do agravamento da violência na Cisjordânia ocupada.

“A situação em Gaza é catastrófica”, declara a ministra da ANP, descrevendo “dois milhões de pessoas amontoadas, sem cuidados de saúde e sem serviços sociais”, além de que “a ajuda humanitária não chega na medida em que deveria” e as passagens de acesso ao território devastado “estão fechadas.

Quase um ano após o cessar-fogo alcançado em outubro de 2025 entre Israel e Hamas, que se acusam mutuamente de sucessivas violações desde então, Varsen Aghabekian lamenta que as negociações sobre as etapas seguintes do acordo tenham caído num impasse.

“Estamos presos na primeira fase”, critica a dirigente da ANP, aludindo à exigência de Israel do desarmamento das milícias do Hamas, que governa o enclave desde 2007, como condição prévia para a retirada das suas tropas, inviabilizando o roteiro proposto pela mediação do Conselho da Paz para a Faixa de Gaza.

A governante apela para que “se saia deste estrangulamento”, observando que “não se trata de saber o que vem primeiro e o que vem em segundo lugar” sobre a desmilitarização do enclave palestiniano ou retirada israelita.

Em alternativa, defende que os dois compromissos “podem mover-se simultaneamente”, desde que haja mecanismos de acompanhamento e as partes cumpram o que assinaram, ou sejam responsabilizadas se não o fizerem.

“Cada dia de atraso significa mais sofrimento infligido aos palestinianos. Mesmo após o chamado cessar-fogo, temos quase 1.500 palestinianos que perderam a vida [em ataques israelitas], o número de feridos é o triplo e a destruição continua”, condena Varsen Aghabekian, questionando: “Que paz é esta?”

A política da ANP sugere também que a administração tecnocrática palestiniana, que deveria substituir o Hamas na gestão corrente do enclave, ao abrigo do roteiro do Conselho da Paz, saia do Egito e se instale desde já na Faixa de Gaza.

Na entrevista à Lusa, abordou ainda as eleições parlamentares na Palestina, previstas para novembro, embora a liderança do Fatah, o movimento do Presidente da ANP, Mahmoud Abbas, e rival do Hamas, admita um adiamento.

“Estamos prontos”, declara a dirigente palestiniana, a propósito de uma votação que não ocorre há duas décadas, embora coloque em dúvida se estará reunido “um ambiente propício para que se possa realizar eleições em todo o território ocupado”.

A par da violência na Cisjordânia, a ministra aponta restrições impostas por Israel à mobilização dos eleitores árabes em Jerusalém Oriental, ocupada desde 1967, a que se soma o impasse na Faixa de Gaza.

Sobre a participação do Hamas, declarado como movimento terrorista por Israel, União Europeia, Estados Unidos, Varsen Aghabekian comenta que os seus dirigentes e militantes são palestinianos, mas têm de aderir ao mandato da Organização para a Libertação da Palestina (OLP), que “é muito claro no que diz respeito a um Estado, uma administração, um país, uma arma”.

Se o Hamas, ou qualquer outra fação, aceitar a OLP “como representação de todos os palestinianos “é bem-vindo”, mas, adverte, “sem isso, não pode participar”.

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*** Henrique Botequilha (texto), Manuel Almeida (fotos) e Pedro Lapinha (áudio e vídeo) ***

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