
Jerusalém, 09 abr 2023 (Lusa) — O Covil dos Leões, milÃcia da cidade de Nablus — um dos grandes focos de resistência armada palestiniana na Cisjordânia ocupada -, anunciou hoje que matou um palestiniano acusado de colaborar com os serviços secretos israelitas.
Trata-se de algo que não acontecia desde a Segunda Intifada e que demonstra o elevado nÃvel de tensão que se vive na região.
A brigada — criada em 2022 com apoio popular e que é sobretudo formada por jovens que não obedecem a milÃcias tradicionais — confirmou a execução do jovem Zuhair Galith no seu grupo da plataforma digital Telegram, onde divulgou um vÃdeo no qual se vê o alegado colaborador confessar as suas atividades de espionagem antes de ser executado.
O espião confesso, residente na Cidade Velha de Nablus — área onde o Covil dos Leões se consolidou no último ano — terá trabalhado para os serviços secretos de Israel e transmitido informação sobre membros destacados do grupo que as forças israelitas depois mataram em várias emboscadas.
Segundo relata no vÃdeo, forneceu pormenores sobre a localização de rebeldes palestinianos que estavam escondidos do exército israelita, e os serviços secretos pediram-lhe que os identificasse antes de incursões militares em que acabaram por matá-los.
Por sua vez, Galith garantiu que Israel lhe pagou 500 shekels (cerca de 126 euros) e cigarros pelos seus serviços, e que os serviços secretos israelitas o chantagearam e ameaçaram revelar a sua homossexualidade se não colaborasse.
Pouco depois, o seu cadáver apareceu numa das ruas da Cidade Velha de Nablus, fazendo dele a primeira pessoa em duas décadas a ser assassinada na Cisjordânia pelos próprios palestinianos por acusações de colaboração com Israel.
Já na Faixa de Gaza, o grupo islâmico Hamas condenou nos últimos anos à morte e executou cidadãos palestinianos presumÃveis colaboradores de Israel.
Segundo o diário israelita Haaretz, que cita um habitante de Nablus, Galith pertencia a uma famÃlia humilde, de poucos recursos, e sentiu-se pressionado a colaborar devido a uma gravação com imagens suas a ter relações sexuais com outro homem.
De acordo com esta fonte, esta “é uma tática muito conhecida” a que Israel recorre “para se aproveitar de famÃlias pobres ou homens homossexuais”, mal vistos pela sociedade palestiniana, ainda muito conservadora e tradicionalista nesse aspeto.
Israel tomou o controlo de Jerusalém oriental e da Cisjordânia em 1967 e, desde então, mantém uma ocupação e colonização desses territórios que é das mais longas da história recente.
No último ano, as tensões, choques e confrontos armados aumentaram muito em diversos pontos da Cisjordânia, e também aumentaram os ataques cometidos por palestinianos, bem como as agressões violentas por parte de colonos israelitas.
Os primeiros meses deste ano foram os mais violentos do conflito israelo-palestiniano desde 2000: do inÃcio de 2023 até agora, morreram 93 palestinianos e israelitas árabes em incidentes violentos de vários tipos e também 18 judeus israelitas.
A isto se junta o surgimento de novas milÃcias, como o Covil dos Leões, em Nablus, ou as Brigadas de Jenin.
Ambas atuam nestas duas cidades do norte da Cisjordânia — bastiões da resistência armada contra Israel — e fazem-no de forma independente, sem estar sob o controlo direto de fações polÃticas clássicas e mesmo enfrentando a Autoridade Palestiniana, cada vez mais deslegitimada entre a sua própria população.
ANC // MSP
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