
Vila Nova de Gaia, Porto, 12 mar 2022 (Lusa) – A noite não é sinónimo de repouso para quem trabalha na construção do túnel que levará o Metro do Porto até Vila d’Este, em Vila Nova de Gaia, uma obra que deverá ver a luz do dia em 2023.
Em frente ao Hospital Santos Silva, no Monte da Virgem, em Vila Nova de Gaia (distrito do Porto), a jornada não tem inÃcio nem fim, já que o túnel mineiro vai sendo escavado 24 horas por dia, sete dias por semana.
“Há várias metodologias de fazer um túnel. Esta é uma tipologia que é a metodologia austrÃaca, a NATM [‘New Austrian tunnelling method’]. É um método de escavação sucessiva em que, como vemos lá ao fundo, escavamos um bocadinho, temos que fazer logo suporte de betão projetado, fazer logo uma estrutura de rigidez, e assim vamos”, explicou à Lusa Pedro Quintas, diretor do projeto da Metro do Porto.
Segundo o responsável, “é todo um ciclo que deve ser feito em contÃnuo até por questões de segurança” e “não permite estar muito tempo parado”, sendo “recomendável fazer as tais 24 horas” de trabalho contÃnuo, algo executado em turnos de oito horas.
Num pequeno santuário cravado nas gigantes paredes à entrada do túnel está Santa Bárbara, padroeira dos mineiros, que, parada e alheia à noção de tempo, observa e abençoa o movimento constante de trabalhadores e maquinaria.
Em terreno lamacento, camiões betoneira, basculantes articulados e escavadoras negoceiam com diferentes graus de dificuldade a saÃda e entrada deste quente tubo gigante que vai abrigando os trabalhos da chuva que cai no exterior.
Este é um metro que avança para Vila d’Este a “dois metros por dia em cada uma das frentes” do túnel, segundo Pedro Quintas.
“Nós temos duas frentes ativas, portanto estamos a atacar o túnel do lado sul para norte, que é onde nós estamos, e também do lado norte para sul, indo ao encontro da estação Manuel Leão”, que será subterrânea e terá um anfiteatro à superfÃcie, referiu.
No túnel, cuja extensão de cerca de um quilómetro servirá para unir o futuro viaduto de Santo OvÃdio (com 500 metros) à estação do Hospital Santos Silva, próximo ao Monte da Virgem, trabalham entre 130 e 150 pessoas, incluindo sempre um número mÃnimo permanente de entre 15 e 20 trabalhadores.
Rumo aos confins, e já com Santa Bárbara à porta, as evocações aos céus ficam lá fora, bem mais à superfÃcie, no alto com um santuário, um observatório astronómico e a maior torre de telecomunicações do paÃs.
As ligações invisÃveis ao éter de pouco valem se, afinal, a descida até à s profundezas gaienses exigiu um trabalho de base bem solidificado.
“Antes da execução da construção foi feita toda uma campanha de sondagens geotécnicas para perceber que tipo de terrenos é que tÃnhamos aqui, ao longo do percurso do túnel. Com base nisso, ajustou-se o projeto para fazer face aos vários tipos de terreno que irÃamos encontrar”, explicou Pedro Quintas.
Segundo o especialista, à medida que a escavação avança, vão-se adotando soluções diferentes, “reforçando mais quando é necessário e aliviando mais quando não é tão necessário, ou seja, se o terreno for mais competente”.
“Se o terreno for mais duro, então aà teremos que, no limite, usar explosivos, onde fazemos uma furação no maciço rochoso, introduzimos uns cartuchos de explosivos e fazemos um rebentamento controlado com detonadores sequenciais, de modo a reduzir as vibrações, e com isso permitir criar uma fissuração no maciço rochoso”, gerando pequenos blocos que depois são retirados por uma escavadora.
Naquele fundo, ao pé da RTP, ninguém sabe e quase ninguém vê o que há na pedra por desbastar, mas a realidade indica que há quem possa sentir ou ouvir o avanço dos trabalhos, como é o caso de algumas famÃlias (atualmente três) realojadas devido à evolução da empreitada.
“Algumas situações que foram reportadas foram identificadas, e, atendendo à s caracterÃsticas dos residentes, foram realojadas algumas famÃlias, mas pontualmente e ao critério”, disse à Lusa a vogal da Metro do Porto Lúcia Leão Lourenço.
A administradora revelou que “foi avaliada a incomodidade, a localização das residências, a sua proximidade sobre o túnel”, algo que “tem sido avaliado caso a caso, em comunicação com os residentes”.
A luz ao fundo deste túnel ver-se-á ainda antes da conclusão total das obras (final de 2023), já que a estrutura subterrânea deverá estar concluÃda este ano, após se ter iniciado em outubro de 2021.
Por agora, o túnel mineiro continua a perfurar e esperará encontrar-se do outro lado com o viaduto de Santo OvÃdio, completando a conexão do novo troço da linha Amarela ao já existente (Hospital São João – Santo OvÃdio).
Santa Bárbara deixará Vila Nova de Gaia e será a guardiã do subsolo na margem norte do rio Douro, no Porto, onde também já ganha forma a linha Rosa, entre São Bento e a Casa da Música.
Talvez regresse a sul para a construção da linha Rubi, entre Santo OvÃdio e a Casa da Música, que unirá as duas margens com uma nova ponte e esculpirá novos caminhos subterrâneos em terras de Soares dos Reis.
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