
Lisboa, 19 jan 2024 (Lusa) — Cerca de metade das famÃlias mais carenciadas com crianças e jovens até aos 15 anos não compra todos os medicamentos que devia, indicador de uma das principais barreiras no acesso aos cuidados de saúde, segundo um inquérito nacional.
A conclusão consta do estudo “Acesso das Crianças a Cuidados de Saúde”, realizado por dois investigadores da faculdade de Economia e Gestão da Universidade Nova de Lisboa (Nova SBE), Pedro Pita Barros e Carolina Santos, que numa primeira versão divulgada em dezembro indicava já que a pobreza impede muitas famÃlias de irem a consultas ou urgências.
Na versão final agora divulgada, o relatório mostra que, num paÃs onde os menores estão isentos do pagamento de taxas moderadoras, uma das principais barreiras financeiras no acesso aos cuidados de saúde está relacionada com o custo dos medicamentos.
Numa análise de agregados familiares com crianças e jovens abaixo dos 15 anos, os investigadores concluem que 50,7% das famÃlias em situação de elevada carência económica (escalão E) em 2022 não adquiriram todos os medicamentos que deviam.
A percentagem é quase três vezes superior em relação à s famÃlias pertencentes ao escalão anterior (17,11%) e 12 vezes superior face aos agregados familiares com menos dificuldades económicas (4,22%).
“Após uma redução deste indicador entre 2015 e 2019/2020, a probabilidade de não aquisição de todos os fármacos aumentou desde então, sobretudo nos escalões socioeconómicos mais desfavorecidos (D e E)”, comparam os investigadores, justificando que “a conjuntura económica dos últimos anos, com inflação elevada, tem acentuado as barreiras financeiras no acesso a cuidados de saúde”.
Outro dos indicadores observados é a substituição de medicamentos de marca por genéricos e, também a esse nÃvel, são identificadas diferenças relacionadas com a situação socioeconómica das famÃlias.
De maneira geral, nos últimos anos houve um favorecimento por medicamentos genéricos, com a probabilidade de as famÃlias optarem por genéricos a crescer cerca de 36% em apenas dois anos, de 23,26% em 2020 para 32,31% em 2022.
No entanto, entre os agregados familiares mais e menos carenciados existe uma diferença bastante significativa e enquanto apenas 7,4% das famÃlias com menos dificuldades optam por genéricos, essa escolha é feita por 66,6% das famÃlias mais carenciadas.
Em linha com as conclusões adiantadas em dezembro, que mostravam um aumento da percentagem de famÃlias que não procurou auxÃlio médico, a versão mais recente do relatório releva que a probabilidade de não ir a uma consulta ou urgência por falta de dinheiro mais que triplicou em apenas um ano, de 2,14% para 7,35%.
As famÃlias em situação de elevada carência económica apresentam uma percentagem bastante superior à média: duas em cada 10 evitam ir ao médico por esse motivo.
Sem taxas moderadoras, as barreiras económicas no acesso a consultas e urgências estão, por exemplo, relacionadas com o custo de transporte ou os custos associados à aquisição de medicamentos, mas os investigadores apontam também barreiras não financeiras no acesso a cuidados de saúde.
Destacando os médicos de famÃlia, o relatório revela que a maioria dos agregados familiares tinha médico atribuÃdo (85,84% entre as famÃlias com menores de 15 anos e 82,38% nas restantes).
Há, ainda assim, zonas do paÃs com menor cobertura e as taxas mais baixas registam-se na Grande Lisboa, onde apenas 79,09% das famÃlias com menores de 15 anos e 65,27% das restantes tinham médico de famÃlia.
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MCA (SIM) // JMR
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