
Cairo, 26 mai 2026 (Lusa) — A organização Human Rights Watch (HRW) denunciou hoje que mercenários colombianos enviados para combater no Sudão receberam treino em bases militares dos Emirados Árabes Unidos (EAU), país que nega qualquer envolvimento na guerra.
Num relatório de 83 páginas, a organização não-governamental de defesa dos direitos humanos detalha que, desde 2024, uma empresa de segurança sediada em Abu Dhabi, o Global Security Services Group (GSSG), contratou “centenas de mercenários colombianos” para lutar ao lado do grupo paramilitar Forças de Apoio Rápido (FAR) contra o Exército sudanês, num conflito que se prolonga desde abril de 2023.
O GSSG foi fundado em 2016 por Mohamed al Humairi, secretário-geral da Corte Presidencial dos Emirados, subordinado ao vice-presidente Mansour bin Zayed Al Nahyan, irmão do chefe de Estado e proprietário do clube inglês Manchester City.
Segundo a HRW, dois militares colombianos contratados confirmaram ter sido enviados para o Sudão.
Um deles relatou que, ao chegar aos Emirados, evitou os controlos de imigração e não teve o passaporte carimbado, sendo levado “imediatamente” para a base de Ghiyathi, em Abu Dhabi, onde recebeu treino de cidadãos emiratis.
A ONG identificou duas bases militares utilizadas antes do envio para o Sudão: Ghiyathi e Al Wathba, ambas no emirato de Abu Dhabi.
“O recrutamento de mercenários colombianos soma-se a um conjunto crescente de provas de que os Emirados fornecem apoio militar às FAR, responsáveis por atrocidades repetidas no Sudão”, afirmou a diretora da divisão africana da HRW, Mauso Segun.
A primeira prova pública da presença de colombianos surgiu em novembro de 2024, através de vídeos nas redes sociais, quando forças aliadas ao Exército sudanês intercetaram um comboio vindo da Líbia.
Investigações da HRW e de outras entidades revelaram ainda que os colombianos possuíam projéteis de fabrico búlgaro desviados das reservas das Forças Armadas dos Emirados, em violação dos acordos de utilizador final.
A organização verificou igualmente vídeos que mostram mercenários “aparentemente colombianos” a combater em Al Fasher, no Darfur do Norte, durante a tomada sangrenta da cidade pelas FAR em outubro de 2025, marcada por assassinatos, violações e abusos “generalizados”.
Um mercenário colombiano declarou ter treinado combatentes das FAR em Nyala, bastião paramilitar em Darfur do Sul, em abril de 2025, acrescentando que “muitos dos recrutas eram crianças pequenas”, o que constitui crime de guerra segundo o direito internacional.
Após mais de três anos de conflito, os Emirados continuam a negar categoricamente apoio às FAR, acusadas de crimes contra a humanidade, insistindo que apenas prestam ajuda humanitária à população sudanesa.
A guerra no Sudão já provocou dezenas de milhares de mortos e o deslocamento de cerca de 14 milhões de pessoas, enquanto mais de 19,5 milhões — dois em cada cinco sudaneses — enfrentam níveis de crise de insegurança alimentar, segundo dados da ONU.
Em 15 de abril de 2023, a guerra eclodiu em Cartum, capital sudanesa, entre as Forças Armadas Sudanesas (FAS) chefiadas pelo general Abdel Fattah al-Burhan e as FAR, paramilitares, lideradas por outro general, Mohamed Hamdan Dagalo, conhecido como “Hemedti”.
Quando os combates começaram em Cartum, Burhan e Hemedti eram, respetivamente, presidente e vice-presidente do Conselho Soberano de Transição, que era o órgão executivo do Sudão desde agosto de 2019, ou seja, desde pouco mais de três meses depois do golpe militar que derrubou o antigo ditador, Omar al-Bashir, em 11 de abril de 2019.
Em outubro de 2021, Burhan e Hemedti lideraram um golpe militar, que dissolveu o Governo e destituiu os membros civis do Conselho de Transição, transformando-o numa junta militar. No quadro do relançamento do processo de transição, em dezembro de 2022, tensões crescentes entre as FAS e as FAR – em consequência de um plano de integração dos elementos da segunda força nas forças armadas regulares – acabaram por resultar no confronto aberto em 15 de abril de 2023.
Os esforços internacionais para travar a guerra têm sido infrutíferos desde o início, ao mesmo tempo que a ingerência estrangeira, sobretudo o apoio dos Emirados Árabes Unidos – principais compradores do ouro sudanês – às FAR, e o envolvimento, entre outros, de paramilitares russos, nomeadamente o antigo Grupo Wagner, também ao lado de Hemedti, estimulam o prolongamento do conflito e dificultam a eficácia de sanções entretanto impostas por Washington e Bruxelas a ambos os campos beligerantes.
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