
Roma, 02 set 2023 (Lusa) — A primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, pediu hoje ao seu antecessor Giuliano Amato que ponha “à disposição do Governo” os elementos que alegadamente comprovam que um mÃssil francês abateu um avião italiano que se despenhou em 1980.
Segundo Amato, a aeronave, que caiu no mar junto à ilha italiana de Ustica (sul) com 81 pessoas a bordo, foi abatida por um mÃssil francês destinado a matar o ditador lÃbio Muammar Kadhafi.
“As palavras de Amato são palavras importantes, que merecem atenção”, embora correspondam a “deduções pessoais”, escreveu Meloni nas redes sociais, recordando que “nenhum registo relativo à tragédia do DC9 se encontra ao abrigo do segredo de Estado” e que “as autoridades judiciais e as comissões parlamentares de investigação levaram a cabo um grande trabalho ao longo de décadas”.
Por isso, “pergunto ao ex-primeiro-ministro Amato se, além das deduções, está na posse de elementos que permitam alterar as conclusões do poder judicial e do parlamento e se os coloca à disposição do Governo, para que possa dar todos os passos necessários”, acrescentou Meloni.
A tragédia de Ustica, um dos maiores enigmas da aviação italiana, continua envolta em mistério, mais de quatro décadas depois, uma vez que as investigações posteriores apontaram para que o avião tenha sido abatido, mas nunca foram conhecidas as causas nem os autores.
“A versão mais credÃvel é a da responsabilidade da Força Aérea Francesa, com a cumplicidade dos norte-americanos e de quem participou na guerra aérea nos nossos céus na noite daquele 27 de junho”, sustentou Amato numa entrevista hoje publicada no diário La Repubblica.
“O plano era eliminar Kadhafi, que voava num MIG da sua Força Aérea. E o plano era simular um exercÃcio da NATO, com muitos aviões em ação, no decurso do qual seria disparado um mÃssil contra o lÃder lÃbio: o exercÃcio era uma encenação que permitiria fazer passar o ataque por um ‘acidente involuntário'”, afirmou.
No entanto, as coisas aconteceram de forma diferente, pois “Kadhafi foi advertido do perigo (pelo falecido lÃder socialista italiano Bettino Craxi, diz Amato) e não embarcou no seu avião. E o mÃssil lançado contra o MIG lÃbio acabou por atingir o DC9 da Itavia, que se despenhou com 81 inocentes dentro”, acrescentou o ex-presidente do Tribunal Constitucional, exigindo um pedido de desculpas de França.
Estas declarações suscitaram uma tempestade de reações, não só das famÃlias das vÃtimas, que agradeceram as suas palavras, como daqueles que as consideram historicamente incorretas, embora a maioria exija que apresente provas.
A presidente da associação dos familiares das vÃtimas, Daria Bonfietti, afirmou: “[As palavras de Amato] são muito importantes e uma correta reconstrução de tudo o que há nos documentos, de que sabemos há anos”.
“Agora, espero alguma coisa de França e que o Governo italiano atue para a responsabilizar. Não está certo que os nossos aliados nos tratem assim”, acrescentou, em declarações à imprensa local.
O vice-primeiro-ministro italiano Matteo Salvini classificou as afirmações de Amato como “de uma gravidade sem precedentes”, perguntou “se existem elementos concretos que sustentem as suas palavras” e acrescentou: “Dado o peso das declarações e o seu papel relevante na altura dos acontecimentos, aguardamos os comentários das autoridades francesas”.
Entretanto, a filha de Bettino Craxi – o dirigente socialista que, segundo Amato, avisou Kadhafi de que ia ser alvo de um atentado — indicou que Amato confundiu as datas, porque o seu pai alertou o lÃder lÃbio, mas em 1986, não em 1980.
“É uma reconstrução que choca pelas imprecisões históricas que contém”, afirmou Stefania Craxi, senadora da conservadora Força Itália.
ANC // APN
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