
Lisboa, 22 out 2026 (Lusa) — Mais de 300 manifestantes decidiram hoje de madrugada que esta noite irão dormir ao relento na praça do Rossio, em Lisboa, retirando as dezenas de tendas que tinham montado na noite de quarta-feira, num protesto pelo direito à habitação.
Pelas 00:45, a organização do protesto colocou a votação três propostas: tirar as tendas e desmobilizar; tirar as tendas e dormir na rua de forma organizada ou manter as tendas montadas e fazer um cordão em volta.
A proposta para desmontar as tendas e dormir ao relento foi a mais votada, com 338 votos.
A decisão de voltar a colocar tendas na Praça D. Pedro IV foi tomada na noite de quarta-feira, durante uma assembleia popular que se prolongou por mais de três horas e culminou com a exibição de um filme projetado numa tela improvisada.
Com a polícia sempre por perto, o protesto decorreu até ao início da madrugada de forma pacífica, apenas com um momento de maior tensão, quando um homem irrompeu pela concentração a empunhar uma bandeira de Israel, sendo depois retirado pela polícia.
Pouco antes de os manifestantes decidirem que iriam permanecer no Rossio durante a noite a dormir na rua, começaram a chegar à praça trabalhadores dos serviços de Higiene Urbana da Câmara de Lisboa para realizar os habituais trabalhos de limpeza noturnos de lavagem de ruas, passeios e retirada de lixo.
No local, embora afastados dos manifestantes têm estado sempre dezenas de elementos da PSP, que ainda não terão feito qualquer aviso à organização do protesto para abandonar o local.
No meio da praça, a estátua de D. Pedro IV foi esta noite circundada por vários cartazes, onde se lê frases como “Podes ficar com a casa, o carro, os salários, mas não ficas com a rua”.
Numa noite de outono já fria, com os termómetros a marcar 13 graus Celsius pelas 01:30, vários manifestantes gracejaram que o melhor será fazerem “conchinha” para suportar a madrugada a dormir na rua.
A essa hora, várias dezenas de pessoas começaram também a desmobilizar, abandonando a praça.
Na quarta-feira, o ministro da Administração Interna, Luís Neves, afirmou que a PSP vai atuar “por antecipação” nas manifestações pela habitação, salientando que nenhum membro do Governo fica satisfeito com qualquer ato de violência.
Perante a insistência dos jornalistas sobre como é que a PSP vai atuar nos próximos dias perante as concentrações em várias cidades do país em defesa de habitação para todos e a preços justos e dignos, Luís Neves insistiu que foi “muito claro” e que agir por antecipação é não deixar crescer.
O ministro esclareceu ainda que quando disse que “acabaram as acampadas” era no sentido de que a lei é para cumprir, insistindo que manifestar-se é um direito legítimo, constitucional e livre, mas tem de ser no cumprimento da lei.
Entre manifestações e as denominadas acampadas, com centenas ou milhares de manifestantes, os atuais protestos contra a crise na habitação tiveram início no Porto a 10 de outubro e expandiram-se a Lisboa, mas já motivaram também concentrações noutras cidades, dias depois da aprovação parlamentar da nova lei do arrendamento, agora em discussão na especialidade.
As iniciativas, promovidas por movimentos cívicos e difundidas pelas redes sociais, reivindicam medidas que respondam à crise no setor, o controlo dos preços dos bens essenciais e dos combustíveis e defendem impostos sobre os lucros extraordinários das grandes empresas do setor bancário.
A 15 de outubro, o movimento que protestava no Porto, com uma acampada, denunciou uma carga policial violenta durante a madrugada que causou ferimentos em 39 dos participantes, dois dos quais ficaram em estado grave, e em um polícia. Em Lisboa, as autoridades removeram dezenas de tendas do Rossio ao início da manhã de terça-feira e detiveram 55 manifestantes, que serão presentes a juiz dia 27.
Os promotores dos protestos prometem continuar nas ruas.
RCP/VAM // VAM
Lusa/Fim



