
Lisboa, 20 out 2025 (Lusa) — O número de progenitores agredidos pelos filhos que pediram ajuda à Associação Portuguesa de Apoio à VÃtima (APAV) aumentou mais de 27% nos últimos três anos, ultrapassando as 2.800 pessoas, uma média de 2,6 casos por dia.
Segundo as estatÃsticas da APAV sobre “Filhos/as que agridem Os Pais/As Mães”, a que a Lusa teve acesso, entre 2022 e 2024, o número de vÃtimas aumentou de ano para ano, registando-se 815 casos no primeiro ano, 962 no ano seguinte e 1.036 em 2024.
Significa que, no global, há um aumento de 27,1% e que, em média, a APAV ajudou cerca de 78 pessoas por mês, 18 por semana e 2,6 por dia.
Em declarações à Lusa, Cynthia Silva, criminóloga na APAV, apontou que este aumento “pode significar que há mais vÃtimas a procurarem o apoio da APAV”, o que é um “aspeto positivo”, mas chamou a atenção para outra percentagem, a das pessoas que ficam em silêncio.
“Percebemos que, por exemplo, em 48% das situações não há apresentação de queixa, o que significa que, apesar de poder haver maior procura de apoio, ainda há muitas situações que se mantêm silenciadas no que toca à apresentação de queixa junto à s autoridades”, apontou.
Na opinião da responsável, esse silêncio e recusa das vÃtimas em apresentar queixa junto das autoridades competentes poderá ser explicado pelo facto de os crimes ocorrerem sobretudo em contexto de violência doméstica, em que agressor e vÃtima partilham habitação.
“Os motivos mais comuns para a não procura de apoio ou mesmo para a falta de queixa têm muito a ver com estas questões da vergonha, da culpa, a vergonha de dizer que estão a ser vitimadas ou vitimados pelos próprios filhos ou filhas”, apontou.
Explicou, por outro lado, que também pode haver medo de retaliações ou mesmo das consequências legais que o pedido de ajuda ou a apresentação da queixa possam ter para o filho ou filha.
Segundo Cynthia Silva, apesar da violência de que são vÃtimas, os progenitores continuam a querer “proteger as próprias pessoas infratoras” porque se trata do filho ou da filha.
“Depois há outros motivos, nomeadamente o querer ainda manter a imagem de que existe harmonia familiar e de que tudo corre bem dentro daquele seio familiar ou situações de dependência”, adiantou.
A responsável adiantou que como a maior parte destes crimes acontecem em contexto de violência doméstica, a APAV também pode apresentar queixa, uma vez que se trata de um crime público, mas referiu que tentam sempre que seja a vÃtima a fazê-lo com o apoio da APAV.
A criminóloga alertou, por outro lado, para a “questão da vitimação continuada”, apontando que “uma grande parte” das pessoas que procuram a ajuda da APAV pela primeira vez, são vÃtimas há dois ou três anos, o que “significa que, à s vezes, as vÃtimas demoram algum tempo até conseguir procurar algum tipo de ajuda mais profissional”.
Os dados da APAV mostram que dos 2.813 progenitores ajudados pela associação, 96,8% foram agredidos por um filho, enquanto 3,2% foram vÃtimas de mais do que um filho ou filha.
A caracterização da vÃtima mostra que na maior parte dos casos (79,7%) são mulheres, com 65 anos ou mais (58,3%), enquanto os homens estão em maioria (69%) no caso dos agressores, com idade entre os 18 e os 64 anos (62,8%).
Entre os 5.654 crimes ou formas de violência registadas para estas 2.813 vÃtimas, a violência doméstica sobrepõem-se, representando 82,3% do total.
Cynthia Silva defendeu que deveriam existir mais estruturas de acolhimento para as vÃtimas, mas apontou que “à s vezes também existe a dificuldade de conseguir que as vÃtimas queiram sair das suas residências”.
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