
Maputo, 10 jul 2026 (Lusa) — Mais de 12 mil pessoas foram deslocadas pela violência em Cabo Delgado, norte de Moçambique, em junho, quase 80% mulheres e crianças, elevando para 26 mil afetados desde o inÃcio do ano, segundo dados das Nações Unidas.
De acordo com o relatório divulgado hoje pelo Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA), a provÃncia de Cabo Delgado registou 12.174 deslocados em junho em resultado do conflito armado, elevando para 26.184 o número total de pessoas forçadas a abandonar as suas casas desde o inÃcio de 2026.
Segundo o documento, mulheres e crianças representaram 79% das pessoas deslocadas no último mês, enquanto parceiros humanitários reportaram preocupações relacionadas com separação familiar, violência baseada no género, perda de documentação e sofrimento psicossocial.
O OCHA refere que, embora os números mensais de deslocados tenham permanecido abaixo dos registados em grande parte de 2025, o aumento observado nos últimos dois meses demonstra a fragilidade da situação de segurança no norte de Moçambique.
Os movimentos populacionais continuam a ocorrer sobretudo dentro dos próprios distritos afetados ou para distritos vizinhos, sendo frequentemente reincidentes, segundo a agência das Nações Unidas.
No relatório acrescenta-se que as necessidades humanitárias nas zonas afetadas pelo conflito continuam a exceder os recursos disponÃveis, num contexto em que o Plano de Necessidades e Resposta Humanitária para 2026 recebeu apenas 29% do financiamento necessário até junho. Dos 534 milhões de dólares (455 milhões de euros) necessários para responder à s consequências do conflito e das cheias em Moçambique, tinham sido mobilizados 152 milhões de dólares (129 milhões de euros).
Segundo o OCHA, a insuficiência de financiamento está a afetar vários setores da resposta humanitária, com especial incidência na educação, logÃstica e nutrição, ameaçando deixar famÃlias vulneráveis sem apoio adequado para responder à s necessidades mais urgentes.
A provÃncia de Cabo Delgado, rica em gás natural, é alvo de ataques extremistas há oito anos, com o primeiro ataque registado em 05 de outubro de 2017, no distrito de MocÃmboa da Praia.
O OCHA refere que uma parte significativa dos movimentos de deslocados este ano já corresponde a deslocações repetidas, refletindo a instabilidade persistente em várias zonas da provÃncia.
A agência das Nações Unidas contabilizou 2.562 pessoas deslocadas pela primeira vez em 2026, 7.922 pela segunda vez, 657 pela terceira, 2.769 pela quarta e 12.274 em cinco ou mais ocasiões, evidenciando a vulnerabilidade prolongada das populações afetadas pelo conflito.
No relatório refere-se igualmente que Moçambique contabilizava 662 mil deslocados internos em fevereiro deste ano, maioritariamente concentrados nas provÃncias afetadas pela insurgência armada no norte do paÃs.
Assinala-se ainda que as necessidades humanitárias permanecem elevadas noutras regiões afetadas por crises recentes, nomeadamente as cheias, estimando-se que mais de 620 mil pessoas necessitam de assistência, das quais cerca de 417 mil já receberam algum tipo de apoio.
A organização de Localização de Conflitos Armados e Dados de Eventos (ACLED, na sigla em inglês) registou 11 eventos violentos nas duas primeiras semanas de junho em Cabo Delgado, todos envolvendo extremistas do Estado Islâmico, que provocaram oito mortos, elevando para 6.632 o número total de óbitos desde 2017.
De acordo com o mais recente relatório da ACLED, com dados de 01 a 14 de junho, dos 2.408 eventos violentos registados desde outubro de 2017, quando começou a insurgência armada em Cabo Delgado, 2.224 envolveram elementos associados ao Estado Islâmico Moçambique (EIM).
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