
Setúbal, 05 jul 2023 (Lusa) — As contradições no depoimento da mãe da menina de três anos morta em junho do ano passado, em Setúbal, marcaram a sessão de hoje do julgamento dos cinco arguidos no processo, que está a decorrer no tribunal de Setúbal.
A mãe de Jéssica Biscaia, Inês Sanches, que está acusada dos crimes de homicÃdio qualificado e de ofensas à integridade fÃsica qualificada, por omissão, justificou a entrega da filha à famÃlia Montes com alegadas ameaças de morte a si própria e aos quatro filhos que não vivem com ela.
As ameaças, segundo Inês Sanches, terão sido feitas de forma reiterada pelos arguidos Ana Pinto, o marido Justo Ribeiro Montes e a filha do casal, Esmeralda Pinto Montes, todos suspeitos da autoria de maus-tratos violentos que levaram à morte de Jéssica Biscaia.
Estes três arguidos estão a ser julgados pelos crimes de homicÃdio qualificado consumado, rapto, rapto agravado e coação agravada, violação agravada e tráfico de estupefacientes agravado.
Questionada pelo tribunal de Setúbal, Inês Sanches entrou várias vezes em contradição, apresentando versões diferentes sobre alguns factos que constam do processo, designadamente sobre o montante da alegada dÃvida à famÃlia Montes.
A mãe de Jéssica começou por dizer ao tribunal que tinha sido pressionada para pagar uma dÃvida de 100 euros do ex-companheiro Alexandrino Biscaia, com quem viveu entre 2017 e 2021, pela compra de droga à famÃlia Montes.
Poucos minutos depois, Inês Sanches garantiu ao tribunal que a dÃvida, afinal, já estava paga, mas que, entretanto, tinha contraÃdo uma outra dÃvida com a famÃlia Montes no valor de 250 euros, alegadamente por uma “amarração” da arguida Ana Pinto, para a ajudar a preservar a relação com o padrasto de Jéssica, Paulo Amâncio, que naquela altura era seu companheiro.
O presidente do coletivo de juÃzes, Pedro Godinho, tentou também perceber a linha de raciocÃnio de Inês Sanches para o comportamento que revelou nos dias que antecederam a morte da filha.
Inês Sanches afirmou várias vezes que tinha medo da famÃlia Montes e que terá sido por isso que não só nunca denunciou as alegadas ameaças à s autoridades, como também não levou a filha ao hospital quando a menina regressou a casa com nódoas negras, depois de ter estado uma segunda vez ao cuidado da famÃlia Montes.
Instada várias vezes pelo tribunal, Inês Sanches também não conseguiu apresentar uma explicação para o facto de ter entregado a filha uma terceira vez a uma famÃlia que mal conhecia e da qual disse ter recebido várias ameaças de morte.
Sobre o “alargamento do esfÃncter anal” da menina, como consta da autópsia e foi comprovado pelo testemunho do perito de medicina legal ouvido na terça-feira pelo tribunal, Inês Sanches disse não ter qualquer explicação para o facto.
Durante a tarde, o tribunal ouviu ainda a inspetora da PolÃcia Judiciária de Setúbal Catarina MaurÃcio, que coordenou a investigação do homicÃdio de Jéssica.
Catarina MaurÃcio confirmou perante o tribunal que alguns objetos apreendidos nas inspeções realizadas à casa da famÃlia Montes apresentavam vestÃgios da menina e de um, ou mais do que um, dos arguidos Ana Pinto, Justo Montes e Esmeralda Montes.
A inspetora da PolÃcia Judiciária disse também que a casa da famÃlia Montes, onde Jéssica terá sido vÃtima dos maus-tratos violentos que lhe terão causado a morte, terá sido lavada com lixivia no dia em que a menina morreu, reconhecendo que esse facto poderá ter prejudicado a recolha de vestÃgios nas duas inspeções realizadas no local.
Questionada pelo advogado de Justo Montes, que lhe perguntou se além dos objetos apreendidos ao seu constituinte com vestÃgios de ADN do próprio e de Jéssica Biscaia, a investigação tinha apurado mais alguma coisa sobre o mesmo, a inspetora Catarina MaurÃcio respondeu de forma lacónica: “ele esteve no apartamento todos os dias”.
O julgamento do homicÃdio de Jéssica Biscaia, que começou em 05 de junho, tem nova sessão marcada para as 09:15 de quinta-feira.Â
GR // VAM
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