Livro lançado em Cabo Verde resgata memórias do caso Monte Txota

Praia, 25 mar 2026 (Lusa) — O livro “Monte Txota — Um Massacre em Cabo Verde” foi hoje lançado na capital cabo-verdiana, Praia, como forma de resgatar a memória das pessoas envolvidas no caso, referiu Ricardino Pedro, coautor da obra.

“Resgatámos a memória daquelas pessoas, da tragédia, a parte humana e emocional. Na altura, nós, como jornalistas da agência Lusa, tratámos isso e foi muito rápido. Dez anos depois quisemos trazer essas memórias à ribalta”, explicou, ao lado de Cristina Fernandes Ferreira, jornalista.

Ambos seguiram o caso em que oito militares e três civis foram assassinados no posto militar de Monte Txota, ilha de Santiago, por um outro militar, Manuel Ribeiro “Entany”, autor confesso dos crimes de 25 de abril de 2016 e que cumpre pena de 35 anos de cadeia.

Com tempo, encetaram um trabalho que levou dois anos, com dezenas de entrevistas para “saber quem eram essas pessoas, os sonhos, os objetivos, as suas vivências” como “um contributo para a história de Cabo Verde e para a memória coletiva”.

“É um caso traumático, mas quisemos pôr as pessoas a falar disso”, um caso “para nunca mais se esquecer e para nunca mais se repetir”, assinalou.

Segundo Ricardino Pedro, Cabo Verde tem por vezes dificuldade em “falar das suas memórias traumáticas, como Monte Txota, o navio Vicente”, naufragado em 2015, “casos de crianças desaparecidas ou de Zé Catana”, criminoso reincidente, condenado em 2014 por matar e esquartejar o seu companheiro de quarto.

Para aceder a informação sobre o caso Monte Txota, os dois autores encontraram várias portas fechadas: “as instituições oficiais às vezes não querem falar”, mas o livro conseguiu recolher testemunhos pessoais.

“Os jornalistas têm um papel importante em resgatar a memória, em trazer casos, mesmo traumáticos, para a opinião pública”, acrescentou.

Cristina Fernandes Ferreira apontou o caso como um tema que lhe é “muito caro” e que pretende “continuar a acompanhar”.

“Se este livro servir para pessoas que, nesta fase, não quiseram falar connosco, optarem por falar, agora, ou se tivermos autorizações para fazer uma entrevista com ‘Entany’, não vamos enjeitar essa possibilidade”, disse — embora acrescentando que não há “nenhuma indicação” de que tal venha a ser autorizado.

“Nós falamos com as famílias, mas não conseguimos falar com todos. Há seguramente quem tenha outras experiências”, como peças por colocar num ‘puzzle’, disse.

A coautora espera que o livro inspire outros a irem “atrás desta história”.

“Monte Txota — Um Massacre em Cabo Verde” é uma edição da Rosa de Porcelana.

LFO // RBF

Lusa/Fim