Literatura: Zohra Zoberi, autora de Mississauga, acaba de lançar livro de memórias

Imagem: Zohra Zoberi

Há vidas que parecem autênticas aventuras e a de Zohra Zoberi é uma delas. No seu mais recente livro de memórias, ‘The Other I’, a autora canadiana de origem indo-paquistanesa reúne experiências que vão desde a sua saída da Índia, ainda adolescente, até à chegada ao Canadá, em 1976. Pelo caminho, viajou por inúmeros países e testemunhou momentos marcantes, incluindo um golpe militar na Nigéria. Em entrevista ao Correio da Manhã Canadá (CMC), reflete sobre a sua jornada, o multiculturalismo e a sua próxima obra sobre a demência.

 

Correio da Manhã Canadá: Vamos começar por falar um pouco sobre o seu último livro, que se chama ‘The Other I’. Sobre o que trata?

Zohra Zoberi: ‘The Other I’ trata de muitas coisas. Trata-se de uma busca espiritual. Todos temos dois lados, certo? No meu caso, o título tem múltiplos significados. A minha avó deu-me o nome Zohra, que significa luz da manhã, e o meu pai deu-me a alcunha Shadan, que é um nome persa para alegre. E acredito que todos temos dois lados. Um é o instinto de sobrevivência que nos faz seguir em frente, e o outro é a paz interior e a felicidade. A certa altura da vida, senti que esses dois lados precisavam de se integrar. Portanto, no final, trata-se de uma busca espiritual para conseguir um equilíbrio entre ambos. Um dos últimos capítulos chama-se ‘The Integrated I’, e aí descobre-se o que quero dizer. Leiam o livro!

 

CMC: O seu livro contém algumas histórias bizarras… Quais?

ZB: Uma delas é sobre uma caçada a morcegos em África, na qual participei com o meu marido. Vimos os morcegos a serem sugados para uma árvore e, de repente, 15 pessoas começaram a disparar. O organizador da caçada era um professor, um homem muito excêntrico da Universidade de Reading, que usava um chapéu mexicano e ia para o trabalho de triciclo. 50 anos depois, percebi que ele era um dos maiores ícones da ciência. Nessa mesma tarde, o primeiro-ministro da Serra Leoa vinha jantar connosco e adivinhe qual foi o prato principal? Morcegos!

Outra história interessante foi quando conheci o ‘pai do tambor falante’, na Nigéria. Era um homem que, na época colonial, permitia a comunicação entre aldeias através de tambores. Um dia, levei 30 americanos para o conhecer e ele demonstrou como conseguiam comunicar mensagens inteiras através do tambor. Até demos frases modernas para eles transmitirem e conseguiram reproduzi-las perfeitamente.

Outra história bizarra foi quando fiquei presa num golpe militar na Nigéria. Eu costumava preparar-me para jantares e cocktails do governo, então ia à biblioteca ler a Newsweek e a Time para me atualizar. Um dia, fui à biblioteca e reparei que não havia ninguém no caminho. O que estaria a acontecer? Quando cheguei ao parque de estacionamento, vi soldados armados! Hoje em dia ficaria aterrorizada, mas na altura desatei a rir. Eles ficaram espantados e perguntaram-me: “Madame, não tem medo?” Respondi que não. Foi então que soube que 22 líderes políticos tinham sido assassinados na noite anterior e que havia recolher obrigatório. Fui escoltada por um chefe no seu jipe e, ao chegar a casa, as nossas funcionárias ficaram apavoradas ao ver-me acompanhada por soldados.

 

CMC: É conhecida por ser aventureira. Viajou para muitos países, viveu em África, numa época em que havia menos liberdade para as mulheres. Alguma vez sentiu que as pessoas a julgavam pelas suas escolhas?

ZB: Não. Fui um pouco audaciosa, talvez demasiado. Eu era uma adolescente e nunca tinha saído de casa dos meus pais. Quando recebi o pedido de casamento do meu marido, que me disse “vou levar-te pelo mundo”, aceitei. Ele era muito mais velho do que eu, um professor doutorado de Londres, que trabalhava no estrangeiro. Eu costumava brincar com ele e dizer: “Tu apaixonaste-te por mim, mas eu primeiro apaixonei-me pelo teu doutoramento.” As minhas avós ficaram escandalizadas por eu viajar sozinha, mas eu estava entusiasmada.

 

CMC: Quantos anos tinha quando começou essa jornada?

ZB: Tinha 16 anos, quase 17. Podia ter ficado deprimida porque era uma adolescente solitária, falava urdu e não inglês fluentemente. Mas tive sorte, porque enquanto vivi no estrangeiro estive rodeada de uma elite educada vinda de todo o mundo.

 

CMC: O seu marido teve um papel importante no seu percurso?

ZB: Sim, um papel fundamental, foi ele quem me convidou a viajar com ele pelo mundo. No início, ele guiava-me em tudo, mas no final fui eu que passei a guiá-lo. Nascemos ambos na Índia. Em 1947, houve um grande tumulto, durante a Partição da Índia. Viver no país tornou-se perigoso. Os meus pais tiveram de fugir com um bebé minúsculo. Esse bebé era eu. Por isso, acho que a minha aventura começou desde então, quando ainda estava no ventre da minha mãe, numa época em que se cultivava o anseio de pôr fim ao domínio britânico e de conquistar a independência nacional.

 

CMC: Finalmente, em 1976, decidiu imigrar para o Canadá e estabelecer-se lá. Porquê essa decisão?

ZB: Foram três razões principais. A primeira foi a educação do nosso filho, que ia entrar para a escola primária. A universidade era boa onde estávamos, mas a educação secundária não era a melhor. A segunda razão foi a instabilidade política na Nigéria, onde vivíamos na altura. A terceira foi que, depois de termos vivido numa comunidade tão multicultural, procurávamos um país onde nos pudéssemos estabelecer, e o Canadá parecia o mais inclusivo e multicultural.

 

CMC: Fala do Canadá como um país multicultural, mas sabemos que a imigração tem sido um tema controverso no país. Acha que esse multiculturalismo está em risco?

ZB: Os seres humanos são criaturas engraçadas, têm um enorme poder para o bem, mas há sempre um conflito entre o “anjo” e o “demónio” dentro de nós. Algumas pessoas abraçam o multiculturalismo, outras não. No entanto, eu sempre o abracei e mostro isso no meu livro.

 

CMC: Diria que ‘The Other I’ é a obra da sua vida?

ZB: Sim. A ideia surgiu há 20 anos, quando uma professora canadiana de literatura me ouviu contar estas histórias e me incentivou a partilhá-las com o mundo. Sempre tive diários. Mesmo quando vejo televisão, se surge uma ideia, escrevo-a. Sempre gostei de aprender e de me preparar para debates e conversas.

 

CMC: Planeia escrever mais livros no futuro?

ZB: Sim. O meu marido viveu com demência durante nove anos e morreu em 2018. Estou a escrever um livro sobre essa experiência. A demência está a tornar-se uma pandemia e é um tema que precisa de mais discussão.

 

CMC: Tem alguma mensagem para a comunidade portuguesa?

ZB: Sempre gostei da comunidade portuguesa! Tenho amigas portuguesas com quem converso no verão. A minha mensagem é: abracem a positividade. A vida trará desafios, mas tudo passa. Devemos ser gratos pelo que temos. E, finalmente, todos deviam ajudar pelo menos um canadiano deprimido, pois dizem que um em cada quatro sofre de problemas de saúde mental. Escrever um diário pode ser um bom exercício para manter o pensamento positivo.