
Praia, 28 fev 2022 (Lusa) – A linguista e jornalista cabo-verdiana Karina Moreira defendeu, em entrevista à Lusa, que a lÃngua materna do arquipélago deve ter o seu estatuto, como prevê a Constituição de Cabo Verde, para assim permitir desenvolver e padronizar o crioulo.
“O que nós queremos para a lÃngua, hoje, é ver a lÃngua ter o estatuto que a nossa Constituição diz, que todas as lÃnguas do território nacional devem ter o mesmo estatuto”, afirmou a linguista Karina Moreira.
O artigo 9.º da Constituição da República de Cabo Verde, de 1992, define apenas o português como lÃngua oficial, mas também prevê que o Estado deve promover “as condições para a oficialização da lÃngua materna cabo-verdiana, em paridade com a lÃngua portuguesa”.
Para Karina Moreira, é preciso padronizar a lÃngua materna de Cabo Verde, em função das variantes das ilhas, mas acrescenta que a condição atual do crioulo é “inconstitucional”, porque não “goza” do estatuto oficial dentro do seu próprio território.
“Queremos que haja uma mudança nesse aspeto e que a lÃngua receba o seu estatuto para que possa ser objeto de orçamentação para todos os instrumentos de padronização necessário para se investir na educação, na promoção de materiais didáticos e na investigação”, acrescentou.
Defendeu que a lÃngua cabo-verdiana “está de boa saúde”, mas que é preciso trabalhar para a preservar: “É no presente que temos de trabalhar o futuro, há muitas lÃnguas minoritárias que se estão a perder e se não trabalharmos a sua preservação agora, não saberemos o que pode acontecer daqui a um século ou até mais cedo, porque a lÃngua é viva e vai-se transformando quer positivamente, quer negativamente”.
O Ministério da Educação anunciou que prevê a introdução da lÃngua cabo-verdiana no 10.º ano de escolaridade a partir do próximo ano letivo. Face a isto, a linguista cabo-verdiana afirmou que quer fazer uma ponte entre a comunidade cientÃfica e os professores que vão “colocar a mão na massa com as crianças”.
“Queremos passar os nossos conhecimentos e descodificar para uma linguagem mais didática para que eles também tenham instrumentos para depois irem construindo a sua base de trabalho”, apontou.
Para Karina Moreira, a melhor estratégia a ser adotada para o ensino do crioulo é aquela que sirva para “dignificar, valorizar e preservar cada vez mais a lÃngua cabo-verdiana”.
A promoção da lÃngua materna foi um dos desÃgnios assumidos pelo Presidente da República de Cabo Verde, José Maria Neves, que no seu discurso de tomada de posse, em 09 de novembro de 2021, alternou entre crioulo e português.Â
Um grupo de quase 200 personalidades cabo-verdianas, que lançou uma petição também nesse sentido, incluindo Karina Moreira, pediu em novembro passado apoio ao do chefe de Estado e anunciou que pretende criar uma associação em prol do crioulo, não só para a oficialização como para ensino e padronização.
À saÃda do encontro com o Presidente da República, a linguista Amália Lopes, uma das promotoras do grupo que lançou a petição em abril de 2021 para a mudança da polÃtica linguÃstica em Cabo Verde, disse que o objetivo não é apenas a oficialização do crioulo, que requer uma revisão da Constituição da República, mas também o ensino da lÃngua cabo-verdiana e a sua padronização.
Para a promotora, o ideal no paÃs seria um “bilinguismo precoce”, desde o jardim-de-infância, em que as crianças pudessem aprender o suficiente do português oral, para que quando fossem para o primeiro ano fossem alfabetizadas nas duas lÃnguas.
“Vai ser muito importante porque os jovens estão a utilizar a lÃngua cabo-verdiana nas redes sociais e vão poder ter uma disciplina que lhes permita escrever as bases da lÃngua nas diferentes variedades, perceber as diferenças, as semelhanças e ter já competências básicas que lhes vão permitir comparar com a lÃngua portuguesa e avançar melhor nas duas lÃnguas”, reforçou.
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