
Lisboa, 15 Jan 2022 (Lusa) – Os portugueses abstêm-se cada vez mais desde as eleições para a Assembleia Constituinte, em 1975, excetuando em três do total de 16 sufrágios para o parlamento, tendo sido mais os não votantes do que os votantes nas últimas legislativas.
A abstenção em legislativas tem vindo sempre a subir desde 25 de abril de 1975 (o menor valor, de 8,34%) até à mais recente votação do género, em 06 de outubro de 2019 (o mais alto registo, de 51,43%).
Só em 1980, em 2002 e em 2005 houve quebras na galopante taxa de eleitores ausentes das mesas de voto, à medida que o entusiasmo com o regime democrático, após 48 anos de ditadura fascista do Estado Novo, foi esmorecendo.
A última vez em que houve uma quebra na tendência abstencionista crescente foi em 20 de fevereiro de 2005, quando se verificou uma baixa de cerca de três pontos percentuais face à eleição anterior.
Após oito meses do governo do primeiro-ministro da coligação pós-eleitoral PSD/CDS-PP, Santana Lopes, o então Presidente da República, Jorge Sampaio, dissolvera o parlamento por “irregular funcionamento das instituições” e convocara novas eleições.
Então, os portugueses foram às urnas em maior percentagem do que três anos antes e votaram maciçamente no PS, que obteve assim a sua primeira e até agora única maioria absoluta (45%), com José Sócrates na liderança.
No sufrágio imediatamente anterior, em 17 de março de 2002, também já tinha havido um recuo da abstenção face à s eleições anteriores, desta feita ligeirÃssima (menos de uma décima percentual). Foi quando os eleitores lusos foram chamados a pronunciar-se depois de o então primeiro-ministro de um segundo Governo minoritário socialista, António Guterres, pedir a demissão para evitar o “pântano” polÃtico, após perder as eleições autárquicas de dezembro de 2001.
Na altura, a vitória sorriu ao PSD de Durão Barroso, com 40,2%, seguido do PS (37,8%) e do CDS-PP (08,7%). O então lÃder social-democrata viria a deixar o executivo conjunto com o democrata-cristão Paulo Portas para seguir para a Comissão Europeia, ficando então Santana Lopes no posto de primeiro-ministro, apenas por escassos oito meses até Sampaio recorrer à “bomba atómica” devido à sucessão de remodelações e demissões em vários gabinetes e magistraturas da administração pública protagonizados pelo entretanto fundador e presidente do Aliança.
Antes, é preciso recuar 42 anos para encontrar nova quebra da taxa de abstenção: dois meses antes de morrer na queda de um avião em Camarate, o social-democrata Francisco Sá Carneiro conseguiu o seu segundo triunfo seguido com a Aliança Democrática (PPD/CDS/PPM), em 05 de outubro de 1980.
A AD teve 44,91% por cento dos votos, à frente da Frente Republicana e Socialista (PS, União da Esquerda Socialista e Democrática e Acção Social Democrata Independente), que obteve 26,65%, e da Aliança Povo Unido (PCP, Movimento Democrático Português/Comissão Democrática Eleitoral), com 16,75%.
A abstenção diminuiu na altura um ponto percentual face à s legislativas anteriores, com os portugueses a voltarem a confiar no lÃder do PPD (PSD) depois de um perÃodo com três breves e instáveis Governos da iniciativa presidencial de Ramalho Eanes, liderados, à vez, por Alfredo Nobre da Costa, Carlos Mota Pinto e Maria de Lourdes Pintasilgo.
Nas últimas legislativas, realizadas a 06 de outubro de 2019, foram mais os que optaram por não votar do que os que exerceram o seu direito de voto, com a abstenção a situar-se nos 51,43%.
– Abstenção em eleições legislativas:
08,34% – 25 abr 1975 (Constituinte).
16,47% – 25 abr 1976.
17,13% – 02 dez 1979 (intercalares).
16,06% – 05 out 1980.
22,21% – 25 abr 1983.
25,84% – 06 out 1985.
28,43% – 19 jul 1987.
32,22% – 06 out 1991.
33,70% – 01 out 1995.
38,91% – 10 out 1999.
38,52% – 17 mar 2002.
35,74% – 20 fev 2005.
40,32% – 27 set 2009.
41,97% – 05 jun 2011.
43,07% – 04 out 2015.
51,43% – 06 out 2019.
SMM/HPG // SF
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