
Pristina, Kosovo, 17 fev 2026 (Lusa) — Dezenas de milhares de pessoas reuniram-se hoje em Pristina, Kosovo, para apoiar quatro ex-líderes da guerrilha no conflito contra a Sérvia na década de 1990, julgados por crimes de guerra, incluindo o antigo Presidente Hashim Thaçi.
A manifestação — organizada no dia em que o Kosovo celebra a sua independência, proclamada em 2008 e nunca reconhecida pela Sérvia — coincide com as alegações finais perante o Tribunal Especial para o Kosovo (TEK), com sede em Haia, Países Baixos, que há três anos julga Thaçi e outros três arguidos.
A instância judicial emitiu acusações de crimes de guerra e crimes contra a humanidade contra diversos altos responsáveis do Exército de Libertação do Kosovo (UÇK), incluindo Thaçi (Presidente de 2016 a 2020).
A multidão desfilou no centro da capital depois de uma cerimónia e de discursos na praça central, com muitos participantes a entoarem “UÇK” e a agitarem bandeiras vermelhas com o emblema preto da guerrilha e com o retrato de Thaçi.
“Hoje, no dia da nossa independência, enviamos uma mensagem clara àqueles que estão em Haia. Para Hashim Thaçi, Kadri Veseli, Jakup Krasniqi, Rexhep Selimi e todos os outros: não estarão sozinhos. Atrás de vocês está a nossa história, o nosso sacrifício e a nossa luta!”, disse à multidão Ismail Tasholli, um dos organizadores.
A marcha foi organizada por membros do partido político de Thaçi e contou com a presença da Presidente do Kosovo, Vjosa Osmani, segundo imagens transmitidas pela televisão nacional.
Em 09 de fevereiro, o Ministério Público requereu 45 anos de prisão para Thaçi, Kadri Veseli, Jakup Krasniqi, Rexhep Selimi.
Os quatro são acusados de assassinatos, torturas, perseguições e detenções ilegais de centenas de civis e não combatentes, incluindo sérvios e albaneses do Kosovo considerados opositores políticos, em dezenas de locais no Kosovo e na Albânia.
O julgamento em Haia desde o início suscitou hostilidade no Kosovo, onde Hashim Thaçi e os outros três acusados são amplamente considerados símbolos da guerra pela independência.
“Eles são os nossos heróis. Devem ser libertados porque o Kosovo ainda precisa deles”, disse à AFP Daut Hasani, de 25 anos, estudante de arquitetura que participou no comício.
“O Tribunal de Haia não é um tribunal justo. Julga apenas os albaneses, mas não aqueles que cometeram os crimes mais graves durante a guerra”, considera Ragip Ramadani, de 65 anos, reformado, residente em Dragash (sul).
Hoje de manhã, num discurso a propósito do 18.º aniversário da independência, o primeiro-ministro kosovar, Albin Kurti, afirmou que “a contribuição de cada um [dos quatro] para a liberdade e a independência é preciosa”.
“A história fará o julgamento justo”, afirmou.
Cerca de 13.000 pessoas foram mortas durante o conflito (1998-1999), incluindo 11.000 albaneses kosovares, na sua maioria civis.
A última audiência do julgamento terá lugar na quarta-feira. Os juízes deverão anunciar o veredicto no prazo de um mês, que poderá ser prolongado por mais dois meses.
O tribunal em Haia foi criado pelo parlamento kosovar com a missão de julgar os antigos membros da guerrilha. Faz parte do sistema judicial kosovar, mas é composto exclusivamente por membros internacionais.
Hashim Thaçi, de 57 anos, liderou o UÇK durante a guerra contra as forças sérvias, foi o primeiro chefe do Governo do Kosovo após a proclamação da independência, em 17 de fevereiro de 2008, e mais tarde foi Presidente.
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