Jovens ucranianos recordam ameaças e medo nos territórios ocupados

Lisboa, 28 fev 2026 (Lusa) — Três jovens ucranianos relatam as suas experiências nos territórios ocupados, desde que a invasão russa os encontrou ainda menores de idade até encontraram forma de escapar a um ambiente de ameaça e medo, numa viagem de retorno incerto.

Em conversa com a agência Lusa, Ivan M. conserva, aos 20 anos, um rosto adolescente e tranquilo, que contrasta com o sobressalto da sua experiência nos últimos quatro anos, desde que as forças russas cercaram e arrasaram a cidade de Mariupol, num dos marcos mais sangrentos da história do conflito.

Era nesta cidade do sudeste da Ucrânia que Ivan estudava mecânica e também vivia o irmão três anos mais velho, após ambos terem partido de Kramatorsk, na província leste de Donetsk, de onde recebeu uma chamada da mãe, naquela manhã de 24 de fevereiro de 2022: “Começou a guerra, faz as malas e sai daí”. Já era tarde.

Ivan M., então com 16 anos, refugiou-se nas caves da escola profissional com os colegas, além do seu diretor, Anton Bilay, e no mês seguinte, “sem água nem luz e a comida a escassear”, a polícia ucraniana encaminhou-os para o centro da cidade, junto do teatro que servia de abrigo antiaéreo de civis e identificado com a palavra “crianças” para ser vista pela aviação russa.

No dia 16 de março de 2022, o teatro foi bombardeado: “Eu estava lá, vi muitos mortos”, testemunha o jovem ucraniano quase quatro anos depois de um dos principais massacres desta guerra e que matou 600 pessoas, segundo uma investigação da agência norte-americana Associated Press.

Ivan M. foi um dos jovens que escaparam dos territórios ocupados e estiveram presentes na conferência “Bring Kids Back UA”, promovida pelas embaixadas da Ucrânia e do Canadá em Lisboa na passada terça-feira em Cascais.

Como pano de fundo da iniciativa, está a situação de pelo menos 20 mil menores identificados pelas autoridades de Kiev separados das suas famílias e deportados para a Rússia ou transferidos à força dentro dos territórios ocupados.

Mas o número poderá atingir mais de 700 mil, como chegaram a admitir as autoridades de Moscovo em 2022, num caso que levou o Tribunal Penal Internacional a emitir, em março de 2023, mandados de captura para o líder do Kremlin, Vladimir Putin, e para a sua provedora da Criança, Maria Lvova-Belova, por crimes de guerra.

Em sentido contrário, foram recuperados 2.003 menores, apesar de sucessivas acusações de bloqueio a Moscovo, e um dos primeiros foi Ivan M.

Menos de um mês após a invasão, o rapaz ucraniano e o irmão tentaram furar o cerco russo, caminhando cerca de 20 quilómetros rumo à parte livre de Zaporijia, até serem detidos num controlo militar, onde foi despido.

“Acho que queriam ver se tinha tatuagens ucranianas”, recorda, contando que, quando os dois irmãos eram transportados pelos russos, ainda tentaram fugir, mas sem êxito e sob ameaça de tiros nos joelhos caso voltassem a fazê-lo.

Rotulado como “órfão”, Ivan foi encaminhado para um hospital pediátrico em Donetsk, já ocupada desde 2014.

Foi lá que entrou com outros colegas numa “reportagem reveladora para um canal de TV de propaganda, quando o autarca impostor local foi visitar os ‘órfãos'”, relatam as autoridades de Kiev, na reconstituição deste caso.

Além disso, “disseram-lhes que ninguém precisava deles, que ninguém os iria buscar e que lhes arranjariam novas famílias na Rússia”, em linha com o ambiente de isolamento e “tentativas sistemáticas de moldar a sua identidade e visão do mundo”, a que se adiciona um padrão de apreensão de telemóveis, impedimento de contactos familiares e restrições de uso da língua ucraniana.

Ivan insistia porém no seu idioma e preferência por canções nacionais, mas sem memória de maus-tratos, apesar do dia em que foi levado para um “interrogatório agressivo” pela polícia, que queria informações sobre as posições do exército ucraniano: “Eu dizia que não sabia, estava num ‘bunker’, mas eles insistam: ‘Onde é que eles estão?’. Foi a única vez que me assustei”.

O jovem e os colegas acabaram por ser localizados e resgatados dois meses mais tarde pelo diretor do colégio, que reclamou a sua tutela, apesar de “interrogado durante várias horas até praticamente perder os sentidos”, de acordo com a reconstituição de Kiev.

Ivan prefere não entrar em detalhes sobre sua saída de Donetsk por razões de segurança, condescendendo que “não foi fácil”. Também não quer alongar-se sobre a vida atual ou dos seus familiares. Nem sequer de Kramatorsk, que persiste como um dos pontos mais quentes do conflito.

Daria Herasymchuk, conselheira presidencial e comissária da Ucrânia para os Direitos das Crianças, adverte que, em geral, os menores recuperados têm dificuldade em dormir, terror de um eventual regresso e sentimento de culpa por escaparem sem fazer mais por outros na mesma situação, estando acompanhados por psicólogos, inclusive nas entrevistas com a Lusa.

“Tenho plena noção do que está a acontecer e o meu objetivo é contar e partilhar a minha história e ajudar os outros nos territórios ocupados”, diz o jovem ucraniano.

Ivan M. tem consciência de que o seu caso teve um desfecho negado a uma quantidade incerta de outros milhares de crianças e adolescentes capturados e acima de 1,6 milhões que permanecem sob domínio russo. Entretanto, conserva “a certeza” de que os territórios ocupados voltarão à Ucrânia.

No caso de outro Ivan, 19 anos, e Marta G., 18 anos, a guerra começou muito atrás, em 2014, quando eram crianças e a Rússia promoveu levantamentos separatistas no leste do país, enquanto anexava a península da Crimeia.

Em qualquer dos casos, os dois escaparam da ocupação através de plano que vinham preparando e juntavam dinheiro antes de celebrarem 18 anos.

“Foi uma preparação técnica e moral de quase um ano”, lembra Ivan S., que vivia com a família nos arredores de Moscovo em fevereiro de 2022 e no mesmo ano se mudou para a cidade ocupada de Lugansk, no leste da Ucrânia, onde estudava na escola de artes.

“Sempre muito assustado”, ignorava se conseguiria passar a zona de separação e até desconhecia o país que iria encontrar do outro lado. Afinal, vivia desde os 7 anos sob a bandeira tricolor russa e sua máquina de propaganda, que imputava a Kiev a responsabilidade de uma guerra que iria perder.

“Desde 2014 era fácil acreditar nisso porque não conhecia outra realidade, mas, depois de 2022, conversava com amigos, lia notícias estrangeiras e percebia que não era verdade”, relata o jovem ucraniano.

Como todos, Ivan S. foi sujeito ao bloqueio da maioria das redes sociais globais e informação com origem em Kiev, enquanto tomava a decisão de abandonar o uso da língua russa, apesar das elevadas restrições ao idioma do seu país e de adotar “posições livres” sobre o conflito.

Em simultâneo, cresceu com relatos de interrogatórios e tortura nas “subcaves” da polícia e centros de detenção, o que exigia “todo o cuidado” e reforçava o medo da viagem a empreender.

Marta G. também cresceu numa cidade ocupada desde 2014, em Donetsk, onde convivia com uma “degradação total e escassez ou má qualidade dos alimentos”.

Depois da invasão, “o que já não era bom ficou ainda pior”, incluindo uma forte presença militar nas ruas.

Quando deixou de sentir “condições financeiras, psicológicas, físicas, de segurança, na verdade de tudo” para continuar em Donetsk, começou a planear a viagem para um país que sendo o seu mal conhecia, numa decisão discutida com amigos mas não com a família, que ficou.

Sobre isso Marta não quer falar, tal como deixa sob reserva os pormenores da longa viagem que a levou à Rússia e Bielorrússia antes de Kiev. Apesar de castigada quase todos os dias pelos ataques aéreos russos a que já se adaptou, encontrou “a cidade que Donetsk podia ser e não é”.

Na capital do país, a jovem deixou para trás o “medo de falar ucraniano e ser perseguida” e sente agora outra liberdade.

“Posso expressar-me sobre a minha identidade”, observa a atual estudante de linguística.

“Em Kiev, as pessoas têm uma mentalidade diferente, são mais felizes, mais abertas e falam com mais liberdade”, adiciona Ivan S., sobre a sua experiência nos dois lados do conflito ao tornar-se num habitante recente da capital.

Apesar do peso da memória e da pressão sobre a Ucrânia para ceder o Donbass, tanto o jovem de Lugansk como a sua compatriota de Donetsk conservam o sonho de voltar.

Marta proclama o regresso do controlo ucraniano como “o maior objetivo” da sua vida, enquanto Ivan S. deixa um categórico “não” se fosse confrontado com a nacionalidade russa, potenciado com as cores amarela e azul da bandeira ucraniana que traz na lapela.

*** Henrique Botequilha (texto) e António Cotrim (fotos), da agência Lusa ***

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