
Lisboa, 24 set 2022 (Lusa) – O músico Jorge Palma vai apresentar pela primeira ao vivo, nos concertos que assinalam os 50 anos de carreira, o ‘single’ que gravou em 1972 e cujo pagamento recebeu em eletrodomésticos, recordou em entrevista à Lusa.
“Eu não sei se a apresentei [a canção ‘The Nine Billion Names of God’] ao vivo. Sei que a escrevi, escolhi os músicos — uma pessoa a tocar viola de arco, não me lembro se está lá um ‘cello’, mas acho que não -, fiz o arranjo, gravámos. Sei que chamei amigos para fazer os coros, um deles era o Fernando Tordo, e acho que nunca mais a toquei ao vivo. Nunca a toquei ao vivo, no fundo. Vai ser agora nestes ‘quatro Tivolis'”, contou o músico e compositor.
Os 50 anos de carreira de Jorge Palma são celebrados com seis concertos em Lisboa, quatro dos quais no Teatro Tivoli, em que será feita uma viagem antológica pela discografia do músico.
O primeiro ‘single’ que Jorge Palma gravou em nome próprio marca o inÃcio da carreira, mas o seu percurso na música tinha começado antes, aos 14 anos.
Na altura, o que o movia “eram miúdas, festa, aquelas coisas”. No liceu, começou “a ouvir a pop rock, a começar por [Elvis] Presley, mas sobretudo [The] Beatles e [The Rolling] Stones”. “Aà abandonei completamente os estudos clássicos, chumbei no Liceu Camões, no 4.º ano, deixei de ir à ginástica, à s aulas de piano”, recordou.
Aos 72 anos, as razões são outras. “Atualmente já não é isso que me move, já não tenho muita pachorra para ir para os bares, até à s ‘500 da manhã’. Eu tenho um gosto profundo pela música, todas as áreas”, afirmou.
Foi já na faculdade, quando deixou de ir à s aulas, que percebeu que “podia ter jeito”, caso se dedicasse a isso, “para fazer carpintaria ou criar galinhas”, mas a música é “indissociável” do seu ser.
Ouvindo hoje o primeiro tema que gravou, Jorge Palma entende tratar-se de uma canção “que não está muito mal feita, por acaso”, embora o inglês seja “inglês de liceu ainda”.
“Na altura já tinha lido muitas letras de canções de Bob Dylan, e companhia. Eu gostava e estudei, decorava as letras, sobretudo nos anos de estrada de rua, metro, eu cantava sobretudo esses compositores, Dylan, Paul Simon, James Taylor, Crosby Stills and Nash e Blue Grass, que descobri quando estava a viver em Paris”, partilhou.
Quando quis gravar “The Nine Billion Names of God” e o lado B do ‘single’, “Come, Morpheus”, Jorge Palma foi ter com “o grande músico e maestro” Thilo Krasmann, que o gravou, cedendo espaço de estúdio para que gravasse a maquete, de piano e voz, mas “não pertencia a nenhuma editora”.
Jorge Palma foi então “bater à porta da Arnaldo Trindade, cujo diretor era o Carlos Cruz, que ouviu, achou piada e disse ‘nós pagamos-te a gravação e fazemos a gravação'”.
O pagamento chegou na forma de “uma máquina de lavar roupa e um frigorÃfico”.
“O Arnaldo Trindade tinha, e acho que ainda tem, um negócio de eletrodomésticos”, explicou Jorge Palma lembrando que, naquela altura, tinha acabado de se casar. Quando partiu para a Dinamarca, para escapar ao serviço militar, leiloou ‘o pagamento’ entre os amigos.
O ‘single’ será agora reeditado e estará à venda, em vinil, nos concertos a partir de 07 de outubro.
De toda a discografia, “que está praticamente dividida ao meio entre o catálogo da atual Warner e a Universal, antiga Polygram”, Jorge Palma destaca como discos mais marcantes “o primeiro ‘single’, claro, mas sobretudo o primeiro álbum”.
A escolha recai em “Como uma viagem na palma da mão”, de 1975, porque “é o primeiro”, e foi criado numa altura em que o músico estava “muito influenciado pelo rock sinfónico, Génesis, Yes, etc.”.
“Foi sob essa influência que escrevi as canções desse álbum. Somos só três instrumentistas: VÃtor Mamede na bateria, que veio do meu grupo Sindicato, Rui Cardoso, sopro, flautas e saxes, e eu toquei tudo o que era teclas, baixo, as guitarras todas. Fomos só três pessoas a fazer aquele ‘sonzão’, com a voz muito fininha, novinho”, recordou.
Quanto aos outros 12 álbuns, “cada um corresponde a um momento” da vida de Jorge Palma. “Com quem me dava, com quem vivia, o tipo de vida que levava, o que ouvia e lia, tudo isso torna cada disco único”, disse.
Nos espetáculos que começam no domingo, com um concerto dedicado a “Só”, no Palácio Baldaya, em Benfica, Jorge Palma vai percorrer toda a discografia.
E para isso está a “reestudar” o seu repertório. “O meu quinteto está a trabalhar com muito gosto e afincadamente. E eu também, estou a estudar coisas e ‘eu escrevi isto, que engraçado’. Algumas estou a aprender a tocar outra vez e está a dar muito gozo”, partilhou.
Os concertos no Tivoli acontecem nos dias 07 (em que revisita “Com Uma Viagem na Palma da Mão”, “Té Já” e “Qualquer Coisa Pá Música”) e 26 de outubro (“Acto ContÃnuo”, “Asas e Penas” e “Lado Errado da Noite”) e 01 (“Quarto Minguante”, “Bairro do Amor” e “Jorge Palma – Proibido Fumar”) e 08 de novembro (“Norte”, “Voo Noturno” e “Com Todo o Respeito”).
“Antologia” termina em 19 de novembro, no Capitólio, com uma reunião do grupo Palma’s Gang, que, além de Jorge Palma, integrou, na formação original, também Alex Cortez e Flak, dos Rádio Macau, e Kalu e Zé Pedro (que morreu 2017), dos Xutos & Pontapés, músico que “não terá substituto, vai estar em espÃrito”.
O alinhamento dos espetáculos não inclui nada que não tenha sido ainda gravado. No entanto, Jorge Palma está “quase a concluir um novo álbum”. “Está praticamente tudo gravado, falta escrever partes de letras e acrescentar um instrumento aqui ou ali. Vão ser 10 ou 11 canções. Até ao fim do ano está pronto”, partilhou.
A partir do próximo ano, haverá mais um álbum para juntar a esta “Antologia”.
JRS // MAG
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