
Telavive, 27 jun 2025 (Lusa) – O Ministério dos Negócios Estrangeiros de Israel acusou hoje a ONU de “alinhar com o Hamas”, depois de o secretário-geral da organização ter criticado o sistema de assistência humanitária imposto por Telavive em Gaza.
“A ONU está a fazer tudo o que pode para se opor a este esforço (da assistência pelo Fundo Humanitário de Gaza – FHG). Ao fazê-lo, a ONU está a alinhar com o Hamas, que também tenta sabotar as operações humanitárias do FHG, afirmou a diplomacia israelita em comunicado.
“Culpar Israel pelas falhas da ONU e pelos actos do Hamas é uma táctica deliberada”, adiantou.
O secretário-geral da ONU, António Guterres, alertou hoje que o sistema de ajuda imposto por Israel em Gaza “está a matar pessoas”, sublinhando que “qualquer operação que leve civis desesperados para zonas militarizadas é, inerentemente, insegura”.
António Guterres referia-se às operações de ajuda lideradas pelo FHG, uma organização criada pelos Estados Unidos e aceite por Israel para distribuição de ajuda ao enclave, e que funciona à margem das Nações Unidas.
As distribuições de alimentos desse Fundo levaram a numerosos episódios de caos e violência, com a intervenção do exército israelita, que disparou contra palestinianos que procuravam comida em diversas ocasiões.
No total, mais de 500 pessoas morreram durante a distribuição de alimentos.
Entretanto, o jornal israelita Haaretz publicou uma investigação que dava conta que soldados israelitas encarregados de supervisionar a entrega de alimentos receberam ordens para disparar deliberadamente contra a multidão, antes e depois da distribuição.
Ao ser questionado sobre essa reportagem, Guterres respondeu: “Não precisamos de reportagens dessa natureza para reconhecer que houve violações maciças do direito internacional”. Â
“E, de facto, quando há uma violação do direito internacional, deve haver responsabilização (…). As pessoas estão a ser mortas simplesmente a tentar alimentar-se a si e à s famÃlias. A procura de alimento nunca deve ser uma sentença de morte”, declarou.
“Israel, como potência ocupante, tem a obrigação de aceitar e facilitar a ajuda humanitária”, acrescentou.
Na resposta, a diplomacia israelita sublinhou que, até à data, o FHG forneceu mais de 46 milhões de refeições diretamente a civis palestinianos, e não ao Hamas, movimento islamita que Telavive quer erradicar de Gaza. Â
“As Forças de Defesa de Israel (IDF) nunca têm como alvo os civis, e qualquer pessoa que afirme o contrário está a mentir descaradamente. É o Hamas que está deliberadamente a visar e a assassinar trabalhadores humanitários do FHG — um crime que a ONU nunca condenou — e está também a visar civis que tentam receber ajuda do FHG”, adiantou o ministério de Gideon Saar.
 “A ONU precisa agora de decidir: prefere preservar o seu monopólio e um sistema que beneficia o Hamas — prolongando assim a guerra — ou está interessada em entregar ajuda humanitária a civis em Gaza?”, sublinhou.
Para Guterres, não há necessidade de aplicar modelos perigosos de distribuição de ajuda quando a ONU já tem “um plano detalhado baseado nos princÃpios humanitários de humanidade, imparcialidade, neutralidade e independência”.
A desconfiança do Governo israelita na ONU tem vindo a crescer no último ano: não só falta comunicação com o Secretariado e os órgãos executivos, mas o Governo de Benjamin Netanyahu equaciona igualmente desconsiderar todas as agências da ONU a operar em Gaza.
Hoje, a organização não-governamental Médicos Sem Fronteiras também afirmou, em Genebra, que o modelo de assistência imposto por Israel “deve ser desmantelado imediatamente”, porque “degrada deliberadamente a população palestiniana, forçando-a a escolher entre morrer de fome ou arriscar a vida por ajuda mÃnima”.
Â
PDF (MYMM)// RBF
Lusa/Fim Â



