Internet está a acabar com o negócio dos ardinas de Maputo que passam dias sem vender um jornal

Maputo, 10 nov 2025 (Lusa) – Jorge Francisco é um dos muitos ardinas de Maputo que viu a venda de jornais a “baixar” depois da pandemia da covid-19, com a internet a “matar o negócio”, passando dias sem vender um exemplar.

“O [jornal] Canal [de Moçambique] sai na quarta-feira, até quinta-feira vão levar um ou dois jornais, sexta-feira um ou dois. Aos sábados pior. Tenho duas semanas consecutivas a vir aqui sem vender nenhum jornal, inclusivamente o Notícias [diário] que é o jornal do povo”, conta à Lusa Jorge Francisco, 47 anos.

Há 33 anos que vende jornais no centro de Maputo, no cruzamento entre as avenidas 25 de setembro e Samora Machel, onde começa fazer entrega de jornais aos assinantes às 06:00 locais, antes de montar a banca.

“Agora, meu irmão, nem aconselho a ninguém a vender, a entrar neste negócio, porque tivemos o tempo de covid-19 e depois houve algumas pessoas que saíram na imprensa a dizerem que jornais fazem parte da transmissão da covid-19, continuamos a lutar, mas outros jornais caíram”, diz Jorge, que lamenta a quebra das vendas.

Com a pandemia desapareceram muitas publicações diárias e semanárias, que, diz o ardina, não conseguiram resistir ao tempo e travaram as tiragens.

“Baixou muito, baixou muito”, acrescenta, referindo-se às vendas diárias. “Eu vendia 150 Canal, vendia 100 Canal sem problema nenhum. Recordo que podia sair de casa sem dinheiro, mas acabava por comprar 100 jornais com os lucros, fazer dinheiro e comprar mais 100 jornais e acabarem”, recorda.

Hoje, dos 100 jornais diários que requisitava para vender, passou para 25, que não esgotam, e para quem está no negócio sobra o prejuízo, a afetar as contas para o pão que era para a família.

Para safar nesta luta diária, só alguns assinantes, poucos, mas que continuam a adquirir os impressos.

“Agora o que está a afetar os jornais é o sistema eletrónico, eu chego às 06:00 ou 07:00 e levo jornais, o senhor está em casa às 05:00 e o jornal está no telemóvel. A tecnologia veio estragar o nosso negócio”, diz Jorge, que está a recorrer a outros negócios, como venda carteira móvel, para se manter em pé.

Ao lado de Jorge está Francisco Mutemba, 48 anos, que vende jornais desde 1992, e que teve de se reinventar no mercado para sobreviver, avançando com negócio de carteira móvel e montagem de equipamentos de escritórios, tendo em conta que o negócio de jornais que “já não anda”.

“Do princípio o negócio andava bem, mas agora com a internet já não há negócio. A internet está a matar o negócio de jornais, porque as pessoas apanham tudo na internet, há uma notícia e logo sai na internet na hora, e o jornal é a repetição do que saiu”, diz à Lusa.

Antes da internet e da covid-19, vendia por dia pelo menos 100 exemplares do diário Notícias e 70 do semanário Magazine Independente, mas agora só os assinantes é que tentam dar vida ao negócio de Francisco, que entende que o “custo de vida” também afeta as vendas.

“É um dos fatores, as pessoas já não têm cultura de comprar jornal porque quando alguém apanha dinheiro é para comprar pão e já não sobra para comprar jornal”, explica à Lusa.

No cruzamento entre as avenidas Eduardo Mondlane e Mártires da Machava, está Celso Zandamela, 29 anos, que vende jornais há 13. Diz que o negócio está a falir porque os jovens não têm hábitos de leitura e, por isso, não compram jornais.

“Por exemplo, nos sítios que vou deixar o jornal as pessoas não se preocupam em ler, só lembram quando há um concurso. Atualmente, as pessoas já não leem jornais, mas não é por causa de tecnologia, as pessoas já não têm cultura de ler, tanto jornais como livros”, diz à Lusa.

“O que está a enfraquecer o negócio, posso dizer, agora as pessoas justificam por causa da dificuldade financeira. O jornal em si agora está um bocadinho caro, mas não é porque está caro que uma pessoa não pode comprar”, acrescenta Celso.

Este ardina concorda que a covid-19 afetou o negócio, mas rejeita que seja a tecnologia a principal causa, apontando para a falta do gosto pela leitura, que, diz, é um problema antigo da juventude.

O ardina antes vendia diariamente pelo menos 120 exemplares do diário Notícias, mas agora só leva 40 e tem dificuldade em vendê-los.

“É um número que [significa que] estamos a vender jornais por amor mesmo ao negócio, porque já estamos há bastante tempo lá e já não tem rendimento”, aponta Zandamela.

Ainda no centro de Maputo, a Lusa conversou com Bento Benedito, de 34 anos e ardina há 10, que vende ao longo da avenida 24 de julho, e que diz que hoje o jornal “não tem saída” devido à internet, que permite acesso instantâneo à informação, ultrapassando os impressos em atualidade.

“As coisas estão difíceis, trabalhamos com os clientes, há pessoas que ainda gostam de ler jornal físico, mas são poucas as pessoas que gostam, principalmente jovens, hoje em dia adquirem tecnologia. É raro encontrar um jovem a comprar o jornal”, diz.

Antes da pandemia, vendia 100 exemplares por dia, mas agora são menos de 10, referindo que o negócio tornou-se “insustentável”.

Questionado sobre se a internet estaria a travar a venda do impresso, o ardina não tem dúvidas: “muito, bastante, está a matar, matou de verdade, só podemos nos adaptar e fazer outras coisas”.

Para sobreviver, só virando as atenções para outros negócios, porque hoje em dia “os que compram jornais porque está no sangue são poucos”.

 *** Pretilério Matsinhe (texto), Fernando Cumaio (vídeo) e Luísa Nhantumbo (fotos), da agência Lusa ***

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