
Macau, China, 07 jan 2026 (Lusa) — Uma influenciadora digital chinesa de 20 anos foi encontrada em mau estado de saúde nas ruas de Sihanoukville, no Camboja, após ter sido alvo de tráfico humano para o país, noticia a imprensa estatal chinesa.
De acordo com o semanário China Newsweek, a mulher, identificada como Wu Zhenzhen, natural da província de Fujian, China, afirmou ter sido atraída para o Camboja com a promessa de um emprego bem remunerado.
Em vez disso, acabou abandonada na cidade costal de Sihanoukville, que tem sido apontada por organizações não-governamentais (ONG) como uma base para centros de burla.
Uma fotografia em que aparece sentada na rua, segurando uma radiografia às pernas que aparentava mostrar anomalias, tornou-se viral nas redes sociais chinesas e levou a Embaixada da China no Camboja a confirmar o incidente.
Num comunicado nas redes sociais, a embaixada advertiu que muitas supostas “ofertas de emprego bem remunerado no estrangeiro” estão ligadas a indústrias cinzentas e ilegais, incluindo burlas online, prostituição, jogos de fortuna e azar e drogas.
“Uma vez envolvidas, as pessoas ficam altamente suscetíveis a detenção ilegal, abusos violentos e até perigo de vida”, lê-se no comunicado.
O consulado chinês em Sihanoukville ajudou Wu a ser admitida num hospital local no sábado.
Responsáveis do hospital informaram que lhe foi diagnosticada uma infeção pulmonar, pleurisia, derrame pleural, retenção urinária e falta de albumina. Testes toxicológicos deram também resultado positivo para drogas estimulantes: metanfetamina e cetamina.
Numa entrevista ao China Newsweek, Wu foi descrita como tendo a memória turva e relutante em discutir detalhes.
“Ela mencionou ter sido detida durante vários dias, mas não conseguiu especificar o motivo ou o local. Também referiu várias vezes ter trabalhado como empregada de mesa no Camboja, mas recusou-se a detalhar detalhes do seu trabalho”, afirmou o notícia, publicada na terça-feira.
Milhares de pessoas são traficadas para centros de burla em todo o Sudeste Asiático, onde são torturadas e forçadas a defraudar vítimas em todo o mundo, formando uma operação de escravatura moderna que movimenta milhões.
Sobreviventes e ONGs já detalharam anteriormente esta violência à Lusa.
Outra ONG, a EOS Collective, uma organização sem fins lucrativos que investiga burlas online, afirma que estes esquemas de fraude são agora “operações altamente sofisticadas” alimentadas por tráfico humano em larga escala.
A cofundadora da EOS Collective, Li Ling, advertiu que, só no Camboja, existem “mais de 250 centros de burla”, sendo que o maior pode albergar mais de 15 mil pessoas.
Segundo a polícia de Macau, entre 2024 e 2025, dois indivíduos da região administrativa especial chinesa estiveram detidos em centros de burlas no Camboja.
A escala é global. A Organização Internacional de Polícia Criminal (Interpol) confirma no seu portal que vítimas de 66 países foram traficadas para estes centros de burla online, sendo que aproximadamente 74% foram levadas para centros no Sudeste Asiático. Novos centros estão também a surgir na África Ocidental, no Médio Oriente e na América Central.
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