
Praia, 29 jul 2022 (Lusa) – O primeiro-ministro de Cabo Verde estimou hoje em 8.000 milhões de escudos (71,8 milhões de euros) o investimento do Estado para estabilizar preços de bens essenciais e energia, sem o qual a inflação ultrapassaria os 11%.
“Sem as medidas de estabilização de preços a inflação poderia situar-se, este ano, em 11,3%, bem acima dos 7,9% estimados. Medidas de estabilização de preços têm amenizado os impactos sobre os consumidores, as organizações e as empresas”, afirmou Ulisses Correia e Silva, na Assembleia Nacional, na abertura do debate anual sobre o estado da Nação, aludindo à s consequências da crise inflacionista que afeta o paÃs após a guerra na Ucrânia.
“Depois da forte contração económica em 2020 [-14,8%], o ano de 2021 dava sinais claros de retoma, a economia cresceu 7% com baixa inflação, 1,9%. Os efeitos da guerra podem fazer o crescimento económico ficar em 4% e a inflação poderá disparar para 7,9% em 2022. Perante este cenário, a prioridade volta a ser mitigar os efeitos de mais uma crise com impactos gravosos para o paÃs”, afirmou.
Nos combustÃveis, sublinhou, “sem as medidas tomadas pelo Governo”, nomeadamente os mecanismos para limitar a atualização mensal de preços desde abril, os aumentos médios “poderiam ter-se situado entre os 18 e os 21%”.
“Por causa das medidas, ficaram entre os 2,6 e os 4,1%. Evitámos consequências gravosas para as pessoas e as empresas”, afirmou Ulisses Correia e Silva.
Acrescentou que as medidas adotadas também “têm permitido estabilizar os preços dos produtos alimentares de primeira necessidade e aumentar a capacidade de ‘stock’ de milho” em Cabo Verde: “Os preços dos produtos alimentares de primeira necessidade não acompanharam o aumento registado no mercado internacional, graças à s medidas mitigadoras definidas e implementadas pelo Governo”.
Ainda para mitigar o impacto da escalada de preços, o primeiro-ministro estimou em mais 3.000 milhões de escudos (26,9 milhões de euros) “o investimento para estabilizar os preços de produtos alimentares de primeira necessidade, realizar trabalhos públicos para propiciar rendimento à s famÃlias mais atingidas pela insegurança alimentar, reforçar as refeições nas cantinas escolares e bonificar os preços de ração animal”.
“Mais de cinco milhões de contos [5.000 milhões de escudos, 44,8 milhões de euros] até dezembro deste ano será o investimento necessário para o Governo fazer face à crise inflacionista na energia, estabilizar os preços dos combustÃveis e da eletricidade, de forma a impedir que os valores atinjam nÃveis catastróficos para as famÃlias e as empresas”, sublinhou.
Igualmente para mitigar os efeitos da atual crise nos rendimentos, Ulisses Correia e Silva disse ao parlamento que “foram celebrados, para uma primeira fase, contratos-programa com os municÃpios” no valor 231 milhões de escudos (dois milhões de euros), “para investimentos públicos geradores de emprego”.
“Obras realizadas no âmbito do PRRA [Programa de Requalificação, Reabilitação e Acessibilidades] foram retomadas, dando continuidade a uma grande dinâmica de investimentos que permitiu construir e reabilitar mais de 150 quilómetros de estradas e desencravar várias localidades deste paÃs”, acrescentou, prometendo novos investimentos.
“Um novo pacote de investimentos na construção e reabilitação de estradas, requalificação urbana e de orlas marÃtimas, no valor de 35 milhões de dólares, financiado pelo Banco Mundial, irá ser lançado com impacto na dinamização da construção civil, no emprego e no rendimento das famÃlias de baixa renda”, disse.
Acrescentou que mais 3.000 novos pensionistas do regime não contributivo “irão ser integrados a partir de setembro deste ano”, permitindo “rendimento a idosos, uma camada social muito vulnerável à s crises” e que “5.000 famÃlias serão mantidas com Rendimento Social de Inclusão”.
A Assembleia Nacional de Cabo Verde discute durante o dia de hoje o estado da Nação, debate anual que encerra o ano parlamentar, com a presença do primeiro-ministro, quando o paÃs vive uma “emergência social e económica”.
Depois de dois anos (2020 e 2021) marcados pelo impacto da crise económica provocada pela pandemia de covid-19 e ausência de turismo, setor que garante 25% do Produto Interno Bruto (PIB) e do emprego, a escalada de preços no mercado internacional, provocada pela guerra na Ucrânia, volta a criar dificuldades à economia cabo-verdiana em 2022.
“Este é o momento de reforçar a confiança no paÃs. Somos uma nação com secular história de resiliência. Ultrapassaremos as crises juntos e junto com os cabo-verdianos, como conquistas do povo cabo-verdiano. Os olhos devem estar colocados no futuro”, rematou Ulisses Correia e Silva.
O debate sobre o estado da Nação encerra os três dias de sessão parlamentar, que se iniciou na quarta-feira, e marca o fim do ano parlamentar, com a interrupção dos trabalhos, habitualmente, até meados de setembro.
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