Importações de vinho na China caíram para metade face a 2018 — importador

 

Xangai, 02 mai 2026 (Lusa) — O diretor-geral de uma das maiores importadoras de vinho na China descreveu à Lusa uma transformação profunda do setor, marcada por uma quebra de 50% nas importações face a 2018 e maior sofisticação dos consumidores.

“O mercado que existia em 2018, hoje, é menos de metade”, afirmou à Lusa o português Francisco Henriques, diretor-geral da China Wines & Spirits, com sede em Xangai, a “capital” económica da China, que celebrou esta semana o seu 20.º aniversário.

Em entrevista à Lusa, o responsável, que está há quase duas décadas na China, descreveu uma transformação profunda do setor, marcada por uma quebra “brutal” do consumo, associada a uma combinação de fatores, desde a campanha anticorrupção e de austeridade promovida por Pequim, que inclui restrições ao consumo de álcool em eventos oficiais, até ao impacto da crise no setor imobiliário, que reduziu o apetite por bens considerados de luxo.

Dados recentes indicam que, só no último ano, as importações chinesas de vinho recuaram 11%, situando-se agora em cerca de metade dos níveis registados em 2018, quando o país comprou vinho estrangeiro no valor de quase 3 mil milhões de dólares (2,5 mil milhões de euros).

Durante anos, a China foi um dos principais motores do setor vinícola global, com produtores de regiões como Bordéus ou Austrália a dependerem fortemente da procura chinesa. Em 2019, cerca de um quarto das exportações de Bordéus tinham como destino o país asiático.

Mas a quebra recente está a ter impacto global. Produtores enfrentam excesso de oferta, queda de preços e, em alguns casos, estão a arrancar vinhas ou a deixar uvas por colher.

Além do contexto económico e político, Henriques apontou também para uma transformação cultural, sobretudo entre os mais jovens, que “bebem menos e bebem diferente”.

Segundo o responsável, há duas décadas o vinho era consumido sobretudo por uma elite e dominado quase exclusivamente por França, sendo muitas vezes associado a ofertas e banquetes oficiais.

Hoje, disse, o mercado está “em vias de maturidade”, com maior diversidade de origens e um consumo mais individualizado.

“Há 20 anos bebia-se uma garrafa por pessoa, hoje as pessoas preferem beber um copo, mas melhor”, explicou.

O consumo deslocou-se também para novos contextos, com o crescimento das entregas ao domicílio e das compras através de aplicações móveis.

“Os consumidores podem encomendar uma garrafa no telemóvel e recebê-la meia hora depois”, disse, sublinhando a necessidade de adaptação do setor a estes novos hábitos.

Apesar da contração do mercado, Henriques considerou que a China continua a ser uma aposta estratégica para países como Portugal, embora exija um trabalho de longo prazo.

“Quando o consumidor prova, gosta”, afirmou, destacando a tipicidade das castas portuguesas como uma vantagem competitiva.

O principal desafio, disse, é garantir presença consistente no mercado, nomeadamente na restauração, hotéis e canais de distribuição.

“É preciso que o vinho esteja disponível (…) e esse é o trabalho difícil”, afirmou.

Henriques alertou que muitos produtores falham ao encarar a China como um mercado de oportunidades rápidas, sem investimento continuado.

“Aquele produtor que vem à China, exporta um contentor e depois fica à espera (…) não resulta”, disse, defendendo a importância de parcerias estáveis com importadores locais.

Num mercado que descreveu como “muito dinâmico”, onde empresas entram e saem com frequência, encontrar o parceiro certo pode ser “como uma agulha no palheiro”.

O responsável sublinhou que a dimensão e evolução do mercado justificam o esforço. “É um trabalho que demora anos, mas que traz frutos”, afirmou.

*** Por João Pimenta, da agência Lusa ***

 

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