IA Amália permite soberania da língua, da cultura e dos dados – Paulo Dimas

Lisboa, 01 jul 2026 (Lusa) – O presidente executivo (CEO) do Center for Responsible AI afirma, em entrevista à Lusa, que o modelo de inteligência artificial (IA) português Amália permite três níveis de soberania, da língua, da cultura e dos dados.

O Amália, grande modelo de linguagem (Large Language Model – LLM), é apresentado hoje à tarde no Técnico Innovation Center, em Lisboa.

Questionado para que serve o Amália, Paulo Dimas aponta três razões “e todas a ver com soberania”.

“A primeira é a soberania da língua. A segunda, a soberania da nossa cultura, dos nossos princípios, da nossa, se quisermos, para usar a palavra do Papa, da nossa moralidade”, aponta o CEO do Centro para a IA Responsável (em português).

“Nós temos uma moralidade, nós temos determinados princípios. Nós não queremos, por exemplo, que o Amália ajude as pessoas a, sei lá, a difundir que as vacinas são más”, como acontece com outros LLM. Ou seja, “queremos ter o nosso controlo sobre a nossa moralidadee, sobre a nossa cultura”, sublinha, apontando que “a terceira soberania é a soberania dos dados”.

“Quando estamos a lidar com dados dos cidadãos nacionais, não queremos que esses dados sejam necessariamente enviados para as ‘clouds’ das grandes empresas tecnológicas americanas”, daí a importância da soberania sobre os dados, argumenta.

Em síntese, isto “é o que a Amália é: permite ter soberania no português falado em Portugal, permite ter soberania na cultura e permite ter soberania nos dados”.

Agora, “o Amália não é um de ChatGPT […], é muito importante que as pessoas percebam isso”, sublinha Paulo Dimas.

Até porque um ChatGPT é algo que custa centenas de milhões de dólares e “não é algo que esteja à escala de um país”, mas à escala “de grandes empresas tecnológicas”.

Isto “implica que nós não podemos ir ao Amália e fazer as mesmas tarefas que fazemos no ChatGPT”, mas é possível fazer outras. “Por exemplo, podemos, que é um dos casos de uso do Amália, ajudar os professores a fazer o planeamento das suas aulas, fazendo os sumários em português, europeu, de forma controlada” ou “ter serviços de atendimento ao cidadão” com a ARTE – Agência para a Reforma Tecnológica do Estado, “que não envia os nossos dados para a OpenAI, nem para a Meta ou para o que for”, prossegue Paulo Dimas.

“Estes casos são casos onde o Amália, de facto, pode ser aplicado e já está a ser aplicado”, diz, apontando que o LLM português “não vai descobrir a cura para o cancro, […] não vai ganhar a medalha de ouro nas Olimpíadas da Matemática, não vai permitir descobrir o próximo paradigma da inteligência artificial”, tarefas “que só são possíveis em modelos de grande escala”.

Por isso, “é importante perceber que o Amália funciona para um conjunto de tarefas, neste momento limitado, e não para os outros, porque é uma questão também de investimento, benefício e retorno”, remata.

Em relação ao seu papel no Amália, Paulo Dimas salienta: “Fui uma espécie daquelas pessoas, daquela pessoa que junta parceiros”. Ou seja, “eu, o Centro para a IA Responsável, organizámos um ‘workshop’ dedicada às tecnologias da linguagem, em que o responsável, o chair, foi o André Martins [um dos principais investigadores do Amália], e sentimos que faria sentido juntar o melhor trabalho de investigação que estava a ser feito nesta área, dos Large Language Models”, relata.

Nesse ‘workshop’ estavam ainda João Magalhães [também investigador do Amália], Francisco Santos, da Fundação para a Ciência e Tecnologia, e Vanda França, que está a liderar o centro de excelência para a IA da ARTE.

“Todos começámos a ver” que era necessário ter em Portugal um LLM e, a partir daí, avançou-se para a importância da soberania em IA e a sensibilização política.

O projeto “teve um apoio muito significativo” do primeiro-ministro, cujo projeto foi anunciado na Web Summit num discurso “que aqueceu os ânimos”, salienta, referindo que é preciso ter coragem para que as coisas aconteçam.

O Amália começou a ser desenvolvido há 18 meses “e vai cumprir o prazo que tinha sido definido” porque de facto “as equipas que têm trabalhado no Amália tiveram este espírito de missão e de sentir que estão a criar algo que, de facto, é importante para o país”, sublinha Paulo Dimas.

Entretanto, “este consórcio inicial de dois centros foi alargado a mais três centros de investigação […] e ficámos com cinco centros de investigação”, diz.

“Esses três centros adicionais têm estado a trabalhar nestes 18 meses na área da educação, na área da ciência e na área dos media, portanto, com casos concretos do Amália nestas três áreas”, remata Paulo Dimas.

*** Por Alexandra Luís, da agência Lusa ***

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