
Nações Unidas, 23 jul 2026 (Lusa) – O secretário-geral da ONU, António Guterres, alertou hoje que a situação no Médio Oriente está a “sair do controlo” após o aumento implacável das hostilidades na região e pediu uma mudança de rumo.
“A situação está a sair do controlo. Está à beira do inimaginável. A região está a ser arrastada para um cÃrculo de confrontos cada vez maior. Uma crise alimenta outra. Uma escalada desencadeia a seguinte. À medida que esta dinâmica se espalha, os objetivos polÃticos são cada vez mais obscurecidos pelo próprio confronto. É tempo de recuar”, instou Guterres perante o Conselho de Segurança da ONU.
Numa sessão convocada pela República Democrática do Congo e pelo Paquistão sobre a resolução pacÃfica de conflitos, o ex-primeiro-ministro português argumentou que “não existe solução militar para o conflito” no Médio Oriente e defendeu a diplomacia para pôr fim aos combates em toda a região.
A intervenção de Guterres ocorreu pouco depois de as milÃcias rebeldes huthis no Iémen, apoiadas pelo Irão, terem reivindicado a responsabilidade pelos ataques a dois petroleiros sauditas no mar Vermelho.
Após vários dias de tensões com a Arábia Saudita, que apoia o Governo iemenita reconhecido internacionalmente e é aliada de Washington, os bombardeamentos ameaçam transformar o estreito de Bab el-Mandeb, a porta de entrada para o mar Vermelho, em mais um campo de batalha.
O estreito tornou-se numa das principais rotas alternativas ao estreito de Ormuz, após este ter sido bloqueado pelo Irão.
O secretário-geral também se referiu à situação na Faixa de Gaza, onde, apesar do “suposto cessar-fogo”, os civis continuam a pagar um preço elevado e Israel continua a aumentar o seu controlo sobre a área.
Segundo uma análise citada pelo lÃder da ONU, estima-se que 70% da população do enclave palestiniano enfrentará altos nÃveis de insegurança alimentar.
Guterres, que deixará o cargo no final do ano, definiu o Conselho de Segurança, frequentemente criticado pela sua inação e tensões internas, como “a esperança da humanidade”.
“A sua solidez depende do compromisso daqueles responsáveis por defendê-la. Os membros deste Conselho devem dar o exemplo. As divisões geopolÃticas não são desculpa para a inação ou para fugirmos das nossas responsabilidades”, afirmou.
Guterres instou os membros do órgão mais poderoso das Nações Unidas – do qual Portugal fará partir a partir do próximo ano, por um perÃodo de dois anos como membro não-permanente – a redobrarem os esforços para encontrar terreno comum e avançar rumo à paz.Â
O secretário-geral apelou ainda ao pleno e eficaz uso dos instrumentos estabelecidos na Carta das Nações Unidas para a resolução pacÃfica de litÃgios.
“Quando as partes priorizam as soluções militares em detrimento de acordos negociados, os civis são os que mais sofrem”, frisou.
Na mesma reunião, a China defendeu que o uso da força sem a autorização do Conselho de Segurança deve ser combatido.
O reacendimento do conflito no Golfo não beneficia ninguém, disse o embaixador da China, Sun Lei, instando as partes a atenderem aos fortes apelos pela paz, a exercerem moderação e a cessarem todos os confrontos.
Pequim acrescentou que o restabelecimento célere da normalidade e da segurança na travessia do estreito de Ormuz é uma aspiração comum.
“O mundo não deve regredir à lei da selva”, defendeu, exortando à prática do verdadeiro multilateralismo.
Já a representante dos Estados Unidos afirmou que o seu paÃs, sob a liderança do Presidente Donald Trump, “tem procurado viabilizar a resolução pacÃfica de disputas em todo o mundo”, dando como exemplo o papel norte-americano nos conflitos no Sudão, Gaza, República Democrática do Congo e na Ucrânia.
“Além disso, na região do Golfo, os Estados Unidos têm procurado continuamente uma diplomacia produtiva e de boa-fé com o Irão — esforços que culminaram recentemente na assinatura de um memorando de entendimento entre os nossos dois paÃses”, disse Tammy Bruce.
“Como já dissemos há muito tempo, e como é óbvio, a preferência do Presidente é pelo diálogo em vez do conflito. No entanto, o Irão optou por violar repetidamente o direito internacional, desafiar a Resolução 2817 do Conselho de Segurança e minar o Memorando de Entendimento [firmado em junho passado]”, acusou Tammy Bruce, instando Teerão a retomar o diálogo.
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