
Seixal, Setúbal, 28 out 2026 (Lusa) — O líder da oposição guineense, Domingos Simões Pereira, disse hoje que a ida de uma missão da CPLP à Guiné-Bissau representa que a comunidade internacional voltou a colocar a situação do país na sua agenda.
“Penso que todos nós estamos a dar conta de um novo folego da comunidade internacional em relação à situação da Guiné. Colocando de outra forma, houve um período em que pareceu que a comunidade internacional tinha abandonado o assunto da Guiné e agora volta à sua agenda. É sempre bom, porque nunca é tarde para se tentar alguma influência positiva”, disse o líder do Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC).
Domingos Simões Pereira falava à agência Lusa à margem do colóquio intitulado “A Influência do Pensamento de Amílcar Cabral: das Lutas pela Independência aos Nossos Dias”, que decorreu hoje no Seixal, no distrito de Setúbal.
O primeiro-ministro de transição da Guiné-Bissau anunciou a chegada ao país de uma missão da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), prevista para de 03 a 05 de novembro, noticiaram terça-feira os ‘media’ guineenses.
Questionado sobre o que espera desta missão, Domingos Simões Pereira disse que “não se pode esperar que uma missão por muito importante que seja” leve uma varinha mágica e resolva o problema.
“Espero, sobretudo, que leve uma mensagem clara de que se as atuais autoridades pretendem, de facto, estabelecer uma diferenciação clara entre o período do [ex-presidente Umaro] Sissoco e o pós-Sissocismo, porque mesmo aqueles que serviram o regime de Sissoco parece que hoje querem ter uma atitude diferente. Não podem fazê-lo de forma seletiva, escolher o que convém abandonar do período do Sissoco e preservar aquilo que os favorece”, frisou.
Domingos Simões Pereira sustenta que “aquilo que preocupa a todos os guineenses é que haja uma genuína intenção de, por via do diálogo, por via do entendimento, voltar à normalidade constitucional”.
“Não há outra normalidade constitucional que não seja aquela que resulte da escolha livre do povo guineense”, disse salientando que tem de ser o povo a tomar as decisões de quem tem legitimidade para o representar.
A Guiné-Bissau está suspensa da participação nas atividades da CPLP desde dezembro de 2025, na sequência do golpe militar de 26 de novembro desse ano, que interrompeu o processo eleitoral. A decisão da CPLP determina que a suspensão vigore até à retoma da ordem constitucional.
Estavam previstas para 06 de dezembro deste ano novas eleições, mas foi anunciado no inicio de outubro não estarem reunidas as condições para a votação.
As eleições anteriores, presidenciais e legislativas antecipadas, tinham decorrido em 23 de novembro de 2025, mas o processo foi interrompido pelo golpe militar de 26 de novembro, antes do anúncio dos resultados.
Domingos Simões Pereira está em Lisboa desde 24 de julho, após sair da cadeia na Guiné-Bissau, onde se encontrava em prisão preventiva.
O ex-primeiro-ministro guineense e presidente eleito do parlamento estava a cumprir prisão preventiva desde o passado dia 10 de julho, no âmbito de um processo em que é acusado pela justiça militar de participação numa alegada tentativa de golpe de Estado ocorrida em outubro de 2025 e foi autorizado pelo juiz de Instrução Criminal Mamadú Embaló a viajar para Portugal.
Hoje em declarações à agência Lusa garantiu que saiu de Bissau como um homem livre e que no dia seguinte a estar em Lisboa houve um pronunciamento do Supremo Tribunal de Justiça, através de um acórdão, que deixou bem claro que não existe nenhum processo contra si.
“Em todas as aparições que eu fiz nos tribunais que me convocaram enquanto eu estive em Bissau, todas as audiências começaram por nós deixarmos claro que essas entidades não tinham nem competência, nem autoridade para me julgar. Não só porque, sendo um cidadão civil, nunca compreendi o facto de ser convocado a um tribunal militar, pelo facto de ser deputado de nação em exercício de mandato, mas sobretudo por ser o presidente da Assembleia Nacional Popular, um órgão de soberania para o qual existe uma legislação específica sobre as condições da existência de algum processo judicial”, disse.
O líder da oposição guineense frisou que o povo guineense sabe quem ele é e assegurou que não está associado a nenhuma prática que possa configurar alguma espécie de crime.
“É essa consciência que me deixa absolutamente à vontade”, salientou.
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