
Praia, 08 out 2026 (Lusa) — O primeiro-ministro de Cabo Verde reconheceu hoje que o preço é um dos obstáculos no acesso aos livros e anunciou que o seu Governo vai criar condições que promovam a disponibilidade de obras em papel.
“O preço das coisas é de facto um grande obstáculo a tanta coisa na vida, no mundo; e, sim, um obstáculo em relação ao acesso ao livro. O acesso ao livro é algo que tem de ser assumido e garantido pelo Estado”, disse aos jornalistas no final da abertura oficial da do XIV Encontro de Escritores de Língua Portuguesa, que decorre até sábado na capital cabo-verdiana.
Questionado pela Lusa sobre eventuais medidas governamentais no sentido de reduzir o preço dos livros, Francisco Carvalho explicou que o seu executivo irá “promover o acesso ao livro”.
“A questão do preço dos livros tem que ver também com o privado e temos de ter uma cautela quando lidamos com o privado. Mas, em relação ao que é responsabilidade do Estado, assumimos claramente que vamos incentivar, criar condições e facilitar o acesso ao livro”, adiantou.
E esclareceu que, quando se refere ao livro, está a falar de “folhas de papel mesmo, para folhear, ir para a frente, voltar atrás, carregar debaixo do braço”.
“É deste livro que eu falo”, especificou.
Francisco Carvalho destacou, durante a sua intervenção no encontro de escritores, a dimensão da língua portuguesa, a mais falada no hemisfério sul, como fez questão de referir.
Aos jornalistas, alertou para os desafios que esta língua enfrenta: “A internet, as redes sociais trouxeram uma dimensão em relação à qual ainda não tomamos consciência, que é a velocidade”.
“A leitura tem de ser feita com vagar. A leitura tem de ser apreciada. Cada palavra, cada pontuação, cada parágrafo tem de ser devidamente analisado, pensado, efetivo e sentido e isso é incompatível com essa velocidade estonteante que estamos a atravessar”, disse.
Nesta abertura oficial do XIV Encontro de Escritores de Língua Portuguesa, promovido pela União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa (UCCLA) e a Câmara Municipal da Praia, a secretária-geral adjunta da UCCLA usou e defendeu a palavra: “A palavra cantada, dita, escrita e até sonhada é a chave de ouro que abre todos os lugares”.
Paula Leal da Silva recordou as muitas vezes em que “a língua portuguesa saiu de casa” e afirmou que, se fosse uma língua pura, não resistiria à mudança”.
Nesta cerimónia de abertura oficial, o ministro da Administração Central de Timor-Leste, Tomás do Rosário Cabral, saudou a língua portuguesa e recordou como a mesma foi “língua de resistência” durante a invasão indonésia.
“Hoje, enquanto Estado independente, falar português é estarmos ligados ao mundo. Falar português é uma forma de preservar a nossa identidade”, disse.
A morna cantada por Ineida Moniz e a declamação de poemas, como “Ilha”, de Amílcar Cabral, por alunos do ensino secundário fizeram parte desta cerimónia.
“A Língua Portuguesa como elemento de adaptação num mundo de mudança” é o tema central do XIV Encontro de Escritores de Língua Portuguesa.
Está confirmada a presença de escritores de Angola (Alberto Oliveira Pinto), Brasil (Aline Cardoso, José Inácio Vieira de Melo e José Manuel Diogo), Cabo Verde (Adelcides Rodrigues, Augusta Évora, Carla Indira Semedo, César Monteiro, Dai Varela, Daniel Medina, Eutrópio Lima da Cruz, Fátima Fernandes, Gil Moreira, Mariana Faria, Marilene Pereira e Rui Pereira), da Croácia (Meri Grubic), Galiza (Maria Rosário Fernandez Bello), Guiné-Bissau (Amadu Dafé), Macau/China (Hugo Pinto), Moçambique (António Costa Neto), Portugal (Joana Matos Frias), São Tomé e Príncipe (Olinda Beja) e Timor-Leste (Benjamim Côrte-Real).
*** A Lusa viajou para Cabo Verde a convite da UCCLA ***
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