
Maputo, 11 set 2026 (Lusa) — Pelo menos 1,2 milhões de pessoas receberam assistência humanitária em Moçambique em 2025 através de um fundo das Nações Unidas que canalizou 1,9 milhões de euros para responder aos impactos dos eventos climáticos e da insegurança armada.
De acordo com o relatório anual do Fundo Humanitário de Moçambique, mecanismo gerido pelo Gabinete das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA) no âmbito do Eastern and Southern Africa Humanitarian Fund (ESAHF), divulgado hoje, cerca de 1,3 milhões de pessoas necessitaram de assistência humanitária em Moçambique ao longo de 2025, num contexto marcado pela insurgência em Cabo Delgado, ciclones, surtos de doenças e outras vulnerabilidades crónicas.
Segundo o documento, o fundo financiou operações de assistência multissetorial nos distritos de Macomia e Quissanga, em Cabo Delgado, e mecanismos de resposta rápida a ciclones, cheias e surtos de cólera em várias regiões do país.
A coordenadora humanitária das Nações Unidas em Moçambique, Catherine Sozi, citada no relatório, destacou que 2025 representou o primeiro ano completo de operação do mecanismo e demonstrou o valor de uma resposta humanitária baseada em organizações locais.
“A localização não é simplesmente uma aspiração política, mas uma realidade operacional”, afirmou a responsável, salientando o papel das organizações nacionais em algumas das zonas mais difíceis de alcançar em Cabo Delgado, no norte de Moçambique, rica em gás, e alvo de ataques extremistas desde 2017.
De acordo com o relatório, 96% dos 2,3 milhões de dólares (1,9 milhões de euros) atribuídos pelo fundo em 2025 foram canalizados diretamente para Organizações Não-Governamentais nacionais e locais, numa estratégia que a ONU considera fundamental para garantir respostas mais rápidas e próximas das comunidades afetadas.
No documento refere-se que a situação humanitária permaneceu particularmente crítica no norte de Moçambique, onde a insegurança associada a grupos armados continuou a provocar deslocações, preocupações de proteção e necessidades de assistência em Cabo Delgado e partes das províncias de Nampula e Niassa.
Assinala-se ainda que a escalada da violência em Cabo Delgado afetou mais de 134 mil pessoas durante o ano e que cerca de 300 pessoas foram raptadas desde janeiro de 2025 por grupos armados não estatais.
Paralelamente, os ciclones Chido, Dikeledi e Jude, que afetaram Moçambique entre dezembro de 2024 e março de 2025, provocaram extensos danos em infraestruturas, habitações e meios de subsistência, agravando as necessidades humanitárias em várias províncias do norte e centro do país.
Embora centrado em Moçambique, o fundo integra o mecanismo regional humanitário para a África Oriental e Austral e recebeu em 2025 contribuições de quatro países, designadamente Reino Unido, Irlanda, Noruega e Estónia, num total equivalente a 3,3 milhões de dólares (2,8 milhões de euros).
Segundo Catherine Sozi, a experiência do último ano mostrou que uma resposta baseada em parceiros nacionais permite que os recursos cheguem “àqueles que mais precisam de forma rápida e eficaz”, incluindo comunidades de difícil acesso afetadas pelo conflito ou por desastres naturais.
Desde 2017, a província de Cabo Delgado enfrenta uma insurgência armada que já provocou mais de 6.600 mortos e mais de 1,2 milhões de deslocados, tendo registado desde 2025 incursões esporádicas para as províncias vizinhas de Niassa e Nampula.
Paralelamente, Moçambique é considerado um dos países mais vulneráveis aos efeitos das alterações climáticas, registando regularmente cheias, ciclones tropicais e outros fenómenos extremos durante a época chuvosa.
Segundo dados do Instituto Nacional de Gestão e Redução do Risco de Desastres (INGD), a última época chuvosa provocou 311 mortos e afetou cerca de 1,07 milhões de pessoas em diferentes regiões do país.
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