
Madrid, 13 out 2026 (Lusa) – O Rei Felipe VI faz hoje a primeira visita em 20 anos de um chefe de Estado espanhol a Ceuta, cuja soberania é reivindicada por Marrocos e onde em julho entraram ilegalmente mais de 70.000 pessoas.
Felipe VI, que foi proclamado Rei em 2014, vai dormir na cidade, pelo que será também o primeiro chefe de Estado de Espanha a dormir no enclave espanhol no norte de África desde 1927.
Segundo a agenda divulgada pela Casa Real, Felipe VI vai reunir-se em Ceuta com as autoridades locais, representantes da sociedade civil e líderes das diversas comunidades religiosas da cidade, que se orgulha de ser há séculos “a cidade das quatro culturas” (católica, muçulmana, hindu e judaica).
Mais de 40% da população de Ceuta é católica e mais de 40% é muçulmana.
Felipe VI e Letizia Ortiz vão também participar numa cerimónia ecuménica no cemitério muçulmano Sidi Embarek de Ceuta, onde estão enterradas mais de 80 pessoas que morreram em 30 e 31 de julho ao tentarem entrar na cidade a nado e cujos corpos foram resgatados no lado espanhol da fronteira.
Depois da passagem por Ceuta, Felipe VI e a mulher, Letizia Ortiz, seguem para Melilla, o outro enclave de Espanha no norte de África e com fronteiras com Marrocos.
A última visita de um chefe de Estado espanhol a Ceuta e Melilla foi em 2007, nas únicas deslocações aos enclaves que fez Juan Carlos I, o pai do atual monarca.
As deslocações de poucas horas a cada uma das cidades de Juan Carlos I desencadearam então uma crise diplomática com Marrocos, que retirou temporariamente o embaixador de Madrid.
Desta vez, a visita de Felipe VI tem como cenário a crise desencadeada em Ceuta com a entrada ilegal, em 30 e 31 de julho, de mais de mais de 70.000 pessoas na cidade, naquilo que o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, qualificou logo naqueles dias como um ataque e uma violação à integridade territorial de Espanha.
O ocorrido em Ceuta no final de julho e a crise no terreno que desencadeou – com milhares de pessoas a continuarem ilegalmente na cidade, um aumento da tensão entre a população e os migrantes e relatos de alguns episódios de violência – mantêm-se até hoje no centro do debate público e político em Espanha, com o Governo de Sánchez a ser alvo de críticas generalizadas, da esquerda e da direita.
O executivo tem sido acusado de uma resposta lenta à situação no terreno, com milhares de pessoas a dormirem nas ruas e praias de Ceuta até há poucos dias e de subserviência a Marrocos.
Ceuta e a imigração serão um dos temas que previsivelmente dominarão a campanha para as eleições legislativas antecipadas de 29 de novembro, entretanto convocadas por Pedro Sánchez.
A visita às duas cidades “foi acordada pelo Governo e a Casa Real”, segundo o comunicado da Casa Real espanhola de 01 de outubro.
Felipe VI vai transmitir “o compromisso absoluto do Estado” com os dois enclaves espanhóis, disse Pedro Sánchez, numa intervenção no parlamento nacional, em Madrid, em 03 de setembro.
“Estas cidades são há séculos espanholas e desde aquele tratado [com Marrocos de 1865] são espanholas por acordo diplomático. E asseguro-vos que, por parte do Governo de Espanha, vão continuar a sê-lo até ao final dos tempos”, afirmou.
Sobre o ocorrido em Ceuta, Pedro Sánchez tem dito não existirem, até agora, provas de uma ação “desenhada ou executada” por Marrocos, mas reconheceu pela primeira vez em 03 de setembro que existem “dúvidas, indícios e perguntas que estão no ar” sobre o papel e a atuação das autoridades de Rabat.
Reconheceu também que “é evidente que depois do ocorrido”, a cooperação com Marrocos, país que tem um “papel chave na gestão dos fluxos migratórios” para Espanha, “tem de ser diferente” e têm de ser revistos os “mecanismos de coordenação e alerta” para “construir garantias adicionais”.
Dias mais tarde, revelou que o Governo espanhol pediu “ações e explicações” a Marrocos pela falta de controlo da fronteira com Ceuta em 30 de julho.
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