Federação Académica de Lisboa critica presidente do Instituto da Habitação

Redação, 23 out 2026 (Lusa) – A Federação Académica de Lisboa (FAL) criticou hoje as declarações do presidente do Instituto da Habitação e Reabilitação Urbana (IHRU), Benjamim Pereira, sobre as manifestações contra a crise neste setor.

Na quinta-feira, o presidente do IHRU disse não saber “se a sociedade atual está disponível para o nível de sacrifício” da anterior, recordando que os seus próprios avós emigraram “para poderem ter uma casa”.

Num comunicado assinado pelo presidente Pedro Neto Monteiro, a FAL manifestou discordância com os comentários de Pereira, que descreveu como “profundamente infelizes”, e rejeitou “a normalização dos sacrifícios exigidos aos jovens para aceder à habitação”.

“Este tipo de abordagem desvia o debate daquilo que verdadeiramente importa: as condições que o País oferece aos jovens para acederem a uma habitação condigna”, lamentou a federação.

“O debate sobre a crise habitacional deve centrar-se na responsabilidade de garantir condições efetivas de acesso a uma habitação condigna, em particular para os estudantes e jovens que procuram construir um projeto de vida autónomo”, sublinhou a FAL.

A federação questionou porque, “mesmo estudando, trabalhando e procurando cumprir as suas responsabilidades, tantos [jovens] continuam sem conseguir assegurar uma habitação compatível com os seus rendimentos”.

Os esforços feitos pelas gerações anteriores “devem ser motivo de ambição coletiva para construir uma sociedade em que as gerações seguintes não tenham de enfrentar os mesmos obstáculos, e não um argumento para relativizar as dificuldades que hoje enfrentam os jovens”, acrescentou a FAL.

A federação considerou “particularmente preocupante” que as declarações tenham sido feitas pelo presidente do IHRU, de quem os jovens “esperam respostas concretas para um problema estrutural, não uma abordagem que possa ser interpretada como uma transferência do ónus da crise para aqueles que mais diretamente a sentem”.

“Já fomos todos jovens, não é? (…) E percebemos essa dificuldade. Eu não sei se a sociedade atual está disponível para o nível de sacrifício que os nossos pais e os nossos avós fizeram para ter uma casa”, disse aos jornalistas Benjamim Pereira, em Vila Nova de Gaia (Porto).

Falando acerca das manifestações pela habitação que têm ocorrido sobretudo no Porto e em Lisboa, e questionado sobre se a geração atual está a ter menos sacrifício do que a geração anterior, o responsável do IHRU disse não querer ir “por esse caminho”.

“Só estou a dizer que os meus avós emigraram para o Brasil e para a Argentina para poderem ter uma casa. O meu pai emigrou durante 20 anos, sacrificou a vida”, prosseguiu Pereira, e perante as questões dos jornalistas sobre se os jovens também devem emigrar, afirmou que não estava “a dizer isso”.

“É preciso que haja um compromisso de todos. Reparem, os jovens podem organizar-se, fazer cooperativas. Eu já recebi pessoas no IHRU que agora, com os seus 60 e 70 anos, que quando eram da idade dos jovens que agora se estão a manifestar organizaram-se, fizeram cooperativas e fizeram as suas próprias casas”, afirmou Pereira.

Horas depois, o deputado único do BE, Fabian Figueiredo, pediu a demissão e requereu a audição urgente do presidente do IHRU no Parlamento, lembrando que Benjamim Pereira tem por missão “garantir a concretização, coordenação e monitorização da política nacional de habitação”.

Entre manifestações e as denominadas acampadas, com centenas ou milhares de manifestantes, os atuais protestos contra a crise na habitação tiveram início no Porto a 10 de outubro e expandiram-se a Lisboa, mas já motivaram também concentrações noutras cidades, dias depois da aprovação parlamentar da nova lei do arrendamento, agora em discussão na especialidade.

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