
Maputo, 27 mar 2026 (Lusa) — O antigo Presidente moçambicano, Joaquim Chissano, pediu hoje investigações às reais causas do conflito armado na província de Delgado, norte de Moçambique, refutando alegações da sociedade que o associam à descoberta do gás e má governação naquela zona.
“Alguns podem pensar que [o conflito armado é] porque se descobriu muito gás [em Cabo Delgado], (…) mas porque é que há muito tempo não houve na Nigéria o terrorismo? Mesmo que se diga que há má governação, pode ser, nunca sabemos como as coisas vão”, disse hoje Joaquim Chissano, durante uma conferência sobre paz e segurança em África, em Maputo.
O antigo chefe de Estado, que governou Moçambique de 1986 a 2005, apelou que haja e continue a haver investigação sobre o conflito naquela província do norte do país, rica em gás, e alvo de ataques extremistas há oito anos, com o primeiro ataque registado em 05 de outubro de 2017, evitando-se assim “corta-mato”.
“Sabemos que há muitas organizações terroristas, grandes, que influenciam outras organizações mais pequenas ou que criam outras organizações mais pequenas, mas não temos grande evidência porque aqui, ora chamam-se El Chabaab de Moçambique, ora ISIS [Estado Islâmico do Iraque e Síria] de Moçambique’, não sabemos”, referiu Chissano.
O antigo governante assinalou ainda que a paz numa nação exige instituições “fortes e transparentes”, onde jovens e mulheres sejam protagonistas na tomada de decisões.
“A paz também exige instituições fortes, transparentes, participativas e próximas dos cidadãos. Exige que o Estado e a sociedade civil tenham colaboração sincera. Exige que jovens e mulheres sejam protagonistas, as comunidades sejam parte do processo de tomada e execução de decisões e no usufruto dos benefícios daí resultantes”, concluiu.
A organização de Localização de Conflitos Armados e Dados de Eventos (ACLED, na sigla em inglês), estima que a Cabo Delgado registou dois eventos violentos nas duas últimas semanas, um envolvendo extremistas do Estado Islâmico, que provocaram 13 mortos, elevando para 6.515 os óbitos desde 2017.
O Presidente moçambicano, Daniel Chapo, afirmou em 08 de dezembro, em entrevista à Lusa, não descartar uma solução pela via do diálogo para o terrorismo no norte do país, porque o que Moçambique quer “é a paz”.
“Vamos continuar a trabalhar e, havendo esta linha, esta possibilidade, não há problemas nenhuns que se encontre alguma solução. O que nós queremos é a paz para o povo moçambicano”, disse Chapo, no Porto, em entrevista à margem da cimeira com Portugal.
“O que nós queremos é a paz e Moçambique é uma nação com uma experiência extraordinária nesta área. Se se recordar, tivemos uma guerra [entre as forças governamentais e a guerrilha da Renamo] de desestabilização que durou cerca de 16 anos, matou mais de um milhão de pessoas, destruiu bens públicos e privados, mas acabou através do diálogo. Portanto, foi assim que houve a assinatura dos Acordos Gerais de Paz em Roma, a 04 de outubro de 1992”, acrescentou.
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