
Conacri, 12 dez 2022 (Lusa) – O antigo ditador guineense Moussa Dadis Camará negou hoje responsabilidades durante o seu primeiro testemunho perante o tribunal que está a julgar os alegados responsáveis pelo massacre de setembro de 2009.
“Senhor Camará, durante a sua primeira audiência neste tribunal, foi notificado dos factos pelos quais está a comparecer perante este tribunal e à questão de saber se os reconhece, respondeu negativamente”, afirmou o presidente do tribunal, Ibrahima Sory Tounkara, ao principal arguido.
“Exatamente”, respondeu Dadis Camará antes de começar um monólogo longo e divagante, invocando os filósofos Heraclitus e Immanuel Kant e os faraós egÃpcios.
O testemunho do ex-Presidente foi o momento mais esperado do julgamento que teve inÃcio em 28 de setembro, 13 anos depois dos acontecimentos na Guiné-Conacri, paÃs que faz fronteira com a Guiné-Bissau. A aparição de Moussa Dadis Camará foi interrompida há uma semana quando o tribunal aceitou o pedido para que o antigo autocrata fosse enviado de volta por razões de saúde.
Camará, juntamente com uma dúzia de ex-militares e funcionários governamentais, é acusado de vários assassÃnios, atos de tortura, violações, envolvimento em sequestros, fogo posto e pilhagem cometidos em massa em 28 de setembro de 2009 e nos dias seguintes.
Na sessão de 19 de outubro, o tenente Aboubacar Sidiki Diakité, conhecido como “Toumba”, ex-ajudante de campo de Camará e chefe da sua unidade de proteção, e que também é um dos principais acusadores do antigo ditador, desafiou-o a comportar-se como “um homem” e pedir perdão aos guineenses.
“Foi ele que ordenou tudo. Todos os que o aconselharam disseram-lhe para vir aqui dizer: ‘Sou eu, Presidente Dadis, fui eu quem mandou você. Eu estava no comando, comandante-em-chefe das Forças Armadas Guineenses, Presidente da Transição, Presidente da República, fui eu, então o que aconteceu, o que aconteceu, sou eu, peço perdão ao povo da Guiné, e aqui está, mais uma vez perdão’. Isso é ser um homem”, afirmou Diakité.
Em 28 de setembro de 2009, os boinas vermelhas da guarda presidencial, polÃcia e milÃcias reprimiram, com crueldade desenfreada e frieza desumana, segundo testemunhas, uma concentração de dezenas de milhares de apoiantes da oposição, reunidos num estádio nos subúrbios de Conacri para dissuadir Camará de concorrer à s eleições presidenciais de janeiro de 2010. Os abusos continuaram nos dias seguintes.
Camará, levado ao poder por um golpe de Estado nove meses antes, era o então Presidente.
Naqueles dias, pelo menos 156 pessoas foram mortas e centenas feridas, e, pelo menos, 109 mulheres foram violadas, segundo o relatório de uma comissão de inquérito internacional mandatada pela Organização das Nações Unidas.
Diakité acusou no passado Camará de ter ordenado a repressão, mas o antigo ditador argumentou que as atrocidades cometidas foram perpetradas por homens descontrolados.
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