
Londres, 26 mai 2026 (Lusa) – De Inglaterra a Itália, partes da Europa viveram hoje mais um dia de calor excecional para maio, interrompendo as rotinas num continente que está a aquecer mais rapidamente que os outros.
O Reino Unido bateu o seu recorde histórico de temperatura para maio, com 35 graus Celsius (ºC) registados em Londres.
No continente, a Météo-France alertou que vão poder ser localmente atingidas nos próximos dias temperaturas excecionais de “38° ou mesmo 39°” em França, sublinhando como esta onda de calor precoce, de 10ºC a 15ºC acima da média sazonal, é “excecional, histórica e sem precedentes”.
As temperaturas ultrapassaram 30°C durante o fim de semana de Pentecostes, devido a uma “cúpula de calor” — uma zona de altas pressões que retém o ar quente procedente do norte de África — sobre França e sobre toda a Europa Ocidental, e a Météo-France não prevê qualquer alívio significativo antes de domingo.
“Estamos a receber um número enorme de idosos com desidratação”, disse Katou Blaise, de 57 anos, auxiliar de enfermagem nas urgências de um hospital em Rennes, no oeste de França, queixando-se da falta de meios materiais.
Apesar dos alertas das autoridades, a onda de calor está a provocar mortes e afogamentos, e não apenas entre os idosos, particularmente vulneráveis.
No Reino Unido, foram já registados cinco mortos, indicaram as autoridades locais e a imprensa britânica.
As autoridades francesas, por sua vez, reportaram esta manhã “sete mortes” ligadas à onda de calor, incluindo “pelo menos cinco afogamentos”.
“Infelizmente, sabemos que as temperaturas que atingimos hoje, com quase 35°C em Londres, provavelmente mataram centenas de pessoas em todo o país”, afirmou Bob Ward, especialista do Instituto Grantham para as Alterações Climáticas e o Ambiente, sublinhando que, apesar de acontecimentos passados, tanto as habitações como as infraestruturas se mantêm inadaptadas ao calor.
Em França, várias cidades reforçaram medidas em resposta à onda de calor: em Tours (oeste) e Paris, alguns parques vão estar abertos à noite “para proporcionar mais espaços frescos”, entre outras medidas.
“Trabalho numa cozinha, por isso está a ser horrível”, disse Renata Stankeviciute, de 43 anos, lituana residente, em Londres, com esperança de que “em alguns dias, o frio volte”.
“Está sufocante, não se consegue respirar”, confidenciou Abdel (que preferiu não revelar o apelido), um trabalhador temporário da construção civil em Rennes, que começou o dia às 07:00 (06:00 de Lisboa) e disse que “não parou de beber água”.
“Quem não está preocupado com o aquecimento global deve ser surdo e cego, não?”, comentou Philippe Bignens, de 56 anos, um turista suíço que trabalha no ramo dos seguros.
De acordo com a comunidade científica, as alterações climáticas induzidas pela atividade humana tornam mais intensos os fenómenos meteorológicos extremos, como as vagas de calor, as secas e as inundações.
Em consequência desta “cúpula de calor”, os termómetros marcaram na segunda-feira pela primeira vez 34,8°C em Kew Gardens, o parque botânico no sudoeste de Londres. Foi assim superado em 2ºC o anterior recorde de maio, estabelecido em 1944, ultrapassando em muito a média habitual para a época, de 17ºC ou 18°C.
“Um calor assim seria excecional no Reino Unido em pleno verão”, sublinhou o Met Office, que também não espera que as temperaturas voltem a cerca de 20°C antes do final da semana.
A Irlanda registou também temperaturas inéditas para maio, atingindo 28,8°C no sul.
Em França, o indicador térmico nacional, que mede a temperatura média em todo o país, atingiu hoje um novo recorde para maio, com 24,8°C, depois de na segunda-feira ter registado 24,6°C, já um recorde.
Um alerta laranja de calor, o segundo de três níveis de alerta, foi emitido para oito departamentos do oeste de França, medida nunca vista tão cedo no ano, e a onda de calor vai estender-se a 13 departamentos a partir de quarta-feira.
Alguns agricultores e fruticultores anteciparam certas colheitas, e os viticultores esperam fazer vindimas antecipadas.
“Em algumas regiões, teremos vindimas a começar no início de agosto”, estimou Bernard Farges, presidente de uma organização francesa de vinhos.
O primeiro-ministro francês, Sébastien Lecornu, vai presidir na quinta-feira a uma reunião interministerial sobre esta vaga de calor, que também faz temer uma onda de poluição por ozono.
Em Paris, a temperatura ultrapassou na segunda-feira 33°C nos campos de ténis do torneio de Roland-Garros.
Com o olhar perdido e o rosto suado, o tenista norueguês Casper Ruud, sofrendo de exaustão pelo calor, pediu assistência médica no início do quarto ‘set’, antes de se qualificar para a segunda ronda do torneio.
Em Espanha, os serviços meteorológicos preveem “noites tropicais generalizadas” no sudoeste a partir de quarta-feira, com as temperaturas a atingirem um pico entre quarta e sexta-feira, com máximas de entre 36º e 38°C.
Em Itália, na região do Lácio, que inclui Roma, foram na segunda-feira adotadas normas a limitar o trabalho “com exposição prolongada ao sol” entre as 12:30 e as 16:00 locais.
Em vigor até 15 de setembro, esta regra foi pela primeira vez aplicada a 30 de maio do ano passado.
Um relatório divulgado no final de abril pelo Serviço Europeu de Alterações Climáticas Copernicus (C3S) e pela Organização Meteorológica Mundial (OMM) reiterou que, desde a década de 1980, “a Europa aqueceu duas vezes mais rapidamente do que a média global” e que “as vagas de calor estão a tornar-se cada vez mais frequentes e severas” em pelo menos 95% do território europeu.
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