Europa arrisca financiar IA norte-americana sem colher os benefícios — Lagarde

Viena, 14 set 2026 (Lusa) — A Europa poderá pagar parte da fatura do ‘boom’ da inteligência artificial nos Estados Unidos sem beneficiar da mesma forma do crescimento daí resultante, alertou hoje a presidente do Banco Central Europeu (BCE), Christine Lagarde.

“Hoje, os aforradores europeus estão novamente a financiar a tecnologia disruptiva do nosso tempo: a inteligência artificial. Mais uma vez, a maior parte do dinheiro vai para os Estados Unidos”, afirmou Lagarde durante um discurso em Viena, citada pela AFP.

A presidente do BCE recordou que as famílias da zona euro detêm cerca de 440 mil milhões de euros em ações das gigantes tecnológicas norte-americanas, como a Microsoft, a Alphabet (Google), a Amazon, a Meta ou a Nvidia.

Segundo a banqueira central francesa, os investimentos maciços destas empresas em inteligência artificial, financiados em parte através de dívida, estão a contribuir para pressionar em alta as taxas de rendibilidade das obrigações de longo prazo nos Estados Unidos.

Lagarde salientou que as taxas de juro europeias evoluem em grande medida em linha com as taxas norte-americanas.

No final, “a Europa suportará parte do custo deste ‘boom’ através dos seus próprios custos de financiamento”, sublinhou.

Segundo Lagarde, “a questão é saber se também beneficiará do crescimento que o acompanha”.

Para a presidente do BCE, o desafio é tanto mais importante quanto a inteligência artificial representa uma das principais esperanças para relançar a produtividade europeia, numa altura em que o envelhecimento demográfico reduz a mão de obra disponível e a Europa enfrenta grandes necessidades de investimento.

Na sua opinião, a Europa precisa de modelos “suficientemente avançados” que funcionem em infraestruturas europeias. Por isso, o continente não pode “limitar-se a comprar” esta tecnologia no exterior.

No ano passado, os Estados Unidos produziram 59 modelos de inteligência artificial considerados relevantes, contra 35 na China e apenas um em França e no Reino Unido, segundo o relatório Stanford AI Index.

Lagarde citou a startup francesa Mistral, que desenvolve modelos de IA abertos e acaba de captar três mil milhões de euros para se expandir, mas apelou para o desenvolvimento de mais modelos europeus de inteligência artificial.

“Se a IA europeia se resumir à Mistral, então estamos tramados”, alertou recentemente o ministro francês da Economia, Roland Lescure.

 

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