
Brasília, 04 abr 2026 (Lusa) — Especialistas do setor da energia consideram que o forte setor do agronegócio e as políticas públicas que incentivam os biocombustíveis no Brasil têm sido um amortecedor face ao aumento dos preços dos combustíveis provocado pelos conflitos no Médio Oriente.
Décadas de inovação tecnológica, aliadas à potência agrícola brasileira, que é um dos ‘celeiros’ do mundo, permitiram ao país criar um ‘escudo’ parcial contra choques externos de combustíveis fósseis – além da força interna da petrolífera estatal Petrobras – o que coloca o Brasil numa posição singular na transição energética.
Enquanto os consumidores em todo o mundo enfrentam aumentos acentuados, os preços da gasolina no Brasil subiram apenas 5,5% em março.
O alicerce dessa resiliência remonta a 1975 com o Proálcool, lançado pelo país durante a crise do petróleo no mundo: o que começou como um programa do Governo brasileiro de substituição de importações evoluiu para um robusto sistema de segurança energética ao longo de 50 anos.
O investimento inicial na cana-de-açúcar expandiu-se na última década com forte crescimento do etanol de milho, impulsionado por novos investimentos e ganhos de produtividade.
A tecnologia ‘flex fuel’ consolidou-se como um diferencial do mercado brasileiro, permitindo ao consumidor escolher entre gasolina e etanol conforme os preços.
“O Brasil tem uma oferta bastante elástica de etanol, que reduz a dependência de importações e ajuda a estabilizar o mercado interno”, afirmou à Lusa o presidente da InterB Consultoria de Negócios, Claudio Frischtak.
Segundo o economista, esta flexibilidade coloca o país em vantagem face a outras economias emergentes, como Índia e Indonésia, mais dependentes de combustíveis fósseis.
O avanço mais recente é a lei do “Combustível do Futuro”, de 2024, que amplia gradualmente a mistura de biocombustíveis.
Em 2025, o etanol na gasolina subiu de 27% para 30% e o biodiesel no gasóleo de 14% para 15%.
Esta semana, o vice-Presidente brasiliro, Geraldo Alckmin, o principal responsável por articular esta nova política, destacou que o Brasil é o único país com 30% de etanol na gasolina e que tem uma ampla frota flex.
Apesar disso, o país ainda importa entre 25% e 30% do diesel consumido, o que expõe o mercado a crises externas.
Ainda assim, o diretor da União Brasileira do Biodiesel e Bioquerosene (Ubrabio), Donizete Tokarski, detalhou à Lusa que a capacidade de produção de biodiesel, próxima de 16 mil milhões de litros anuais, permite ampliar a mistura obrigatória. “Temos capacidade instalada suficiente para avançar na mistura e reduzir a vulnerabilidade externa”, destacou.
Em momentos de volatilidade internacional, o biodiesel pode ser mais competitivo que o diesel fóssil. “Quando nós temos essa volatilidade de preços internacionais e a dependência da importação, o biodiesel é um produto que dá uma normalidade maior nos preços”, afirmou Tokarski.
Durante a COP30 no Brasil, em novembro passado, a indústria brasileira do biocombustível comprometeu-se a aumentar em quatro vezes a produção de combustível sustentável até 2035, numa carta assinada, que incluiu também associações de fabricantes de veículos.
Em relação à adaptação para os veículos, o setor de biodiesel enfrenta desafios maiores que o do etanol, já que motores a diesel exigem testes rigorosos, o que leva a Agência Nacional do Petróleo (ANP) a adotar uma postura cautelosa quanto ao aumento da mistura, lembrou o economista da Inter.B Consultoria Internacional de Negócios.
“Como os motores a diesel, usados principalmente em camiões, são mais caros e sensíveis, a ANP mantém uma postura cautelosa, exigindo testes rigorosos para garantir que o aumento da mistura não danifique os motores”, afirmou Claudio Frischtak.
O economista defende o reforço da agência reguladora para acelerar testes e cumprir metas, e que o atual contexto global oferece ao Brasil uma oportunidade estratégica para avançar na sua segurança energética, reduzindo a dependência de derivados de petróleo importados.
Apesar da proteção oferecida pelos biocombustíveis, avalia Frischtak, o Brasil não é uma “ilha de tranquilidade”, uma vez que ainda é importador de diesel de fertilizantes, cujos preços são diretamente afetados por crises globais.
“O Brasil consegue amortecer os impactos, mas não eliminá-los completamente”, concluiu Frischtak.
Ainda assim, a capacidade de refinação própria de petróleo com a Petrobras, mais a produção própria de biocombustíveis e a base tecnológica consolidada garantem que o país enfrente as turbulências do Médio Oriente com ferramentas que poucos países têm.
MYMA // VM
Lusa/Fim
