
Madrid, 14 jan 2026 (Lusa) – O vÃrus Epstein-Barr, comum e causador da mononucleose, desencadeia uma reação do sistema imunitário que pode danificar o cérebro e contribuir para o desenvolvimento de esclerose múltipla (EM), segundo uma nova investigação pelo Instituto Karolinska, na Suécia.
A hipótese de o vÃrus Epstein-Barr (EBV) causar esclerose múltipla tem vindo a ser estudada há anos por vários grupos cientÃficos.
Agora, a nova investigação, publicada na terça-feira na revista Cell, forneceu novos dados que confirmam a ligação entre as duas doenças.
Quase três milhões de pessoas no mundo têm esclerose múltipla, uma doença inflamatória crónica sem cura, em que o sistema imunitário ataca o sistema nervoso central, danificando os neurónios e a medula espinal.
Sabe-se que todas as pessoas que desenvolvem esclerose múltipla já tiveram mononucleose infecciosa, ou “doença do beijo”, causada por um vÃrus que geralmente infeta jovens e muitas vezes não apresenta sintomas.
No entanto, a forma como este vÃrus contribui para a esclerose múltipla ainda não está bem esclarecida.
O novo estudo mostrou que, quando o sistema imunitário combate o vÃrus Epstein-Barr, certas células T — que normalmente atacam o vÃrus — podem também reagir e atacar uma proteÃna cerebral, a anoctamina-2 (ANO2).
Este fenómeno, chamado mimetismo molecular, faz com que as células imunitárias confundam as proteÃnas do próprio organismo com as do vÃrus.
A equipa também descobriu que estas células T com reações cruzadas são significativamente mais comuns em pessoas com esclerose múltipla do que em indivÃduos saudáveis.
“Os nossos resultados fornecem evidências mecanÃsticas de que as respostas imunitárias ao vÃrus podem danificar diretamente o cérebro na esclerose múltipla. Esta é uma doença neurológica complexa e os mecanismos moleculares podem variar entre doentes”, frisou a primeira autora do estudo, Olivia Thomas, do Departamento de Neurociência ClÃnica do Instituto.
O estudo baseou-se em investigações anteriores que mostram que os anticorpos mal direcionados após a infeção pelo vÃrus Epstein-Barr podem desempenhar um papel significativo no desenvolvimento da esclerose múltipla.
Para o confirmar, a equipa analisou amostras de sangue de pessoas com esclerose múltipla e comparou-as com as de indivÃduos saudáveis.
Os investigadores conseguiram isolar células T que reagem tanto à proteÃna EBNA1 como à proteÃna ANO2 do vÃrus em pessoas com esclerose múltipla.
Além disso, experiências em ratos demonstraram que estas células podem exacerbar sintomas semelhantes aos da esclerose múltipla e causar danos cerebrais.
De acordo com os autores, estes resultados ajudam a explicar porque é que algumas pessoas desenvolvem esclerose múltipla após uma infeção pelo vÃrus Epstein-Barr e outras não.
Embora não exista atualmente uma forma eficaz de prevenir ou tratar a infeção pelo vÃrus Epstein-Barr, os cientistas acreditam que uma vacina contra este vÃrus ou o uso de medicamentos antivirais especÃficos para o combater podem ajudar a prevenir ou a curar a esclerose múltipla.
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