
Odemira, Beja, 22 mar 2026 (Lusa) – Entre a aprendizagem da língua portuguesa, ‘cocktails’ e bacalhau à Brás, alunos de várias nacionalidades da Escola Profissional de Odemira (EPO) lutam pela integração no mercado de trabalho, numa região marcada pela imigração.
Nesta escola do distrito de Beja estudam cerca de 300 alunos, a maioria portugueses, embora 40% sejam estrangeiros, oriundos da Índia, Nepal, Bangladesh e Brasil.
“Temos tido uma procura enormíssima de miúdos migrantes, com tudo o que isto traz de bom e mau, porque é muito difícil, ao longo do ano, receber miúdos constantemente”, devido ao fluxo migratório, resume à agência Lusa a diretora pedagógica, Ana Paula Pereira.
A responsável desta escola profissional do Alentejo, considerada exemplo nacional de integração, percorre os corredores exteriores da escola, com a destreza de quem quase os conhece de olhos fechados, enquanto conversa com a Lusa. Por onde passa, é saudada, por vezes com sotaque, pelos alunos que seguem em passo acelerado.
A EPO funciona, atualmente, com sete cursos profissionais, graças a “esta afluência de miúdos”, mais do dobro da oferta de anos anteriores, que se resumia a três ou quatro, destaca.
Além dos cursos de cozinha e pastelaria, restaurante/bar, os mais procurados pelos alunos estrangeiros, a oferta inclui ainda técnico comercial, manutenção industrial, produção agropecuária, informática e turismo ambiental e rural.
“É muito raro termos miúdos estrangeiros num curso de produção agropecuária, porque não querem fazer o que os pais fazem”, assim como em manutenção industrial, reconhece.
Os setores onde os jovens encontram mais facilidade de integração no mercado de trabalho são o da hotelaria e turismo nas empresas do litoral alentejano e Algarve.
Segundo a diretora, no 2.º ano, cerca de “67% dos alunos são migrantes” e, no 3.º, a taxa situa-se nos 66%. Já no 1.º ano, a percentagem desce para 40%, “fruto da mudança da lei da imigração”.
Neste contexto, a aprendizagem da língua portuguesa “é a peça fundamental” para a integração dos alunos estrangeiros, vinca.
Num dos pátios da escola, os alunos distribuem-se por grupos, nos quais predominam as diferenças linguísticas. Uns conversam ou jogam cartas, enquanto outros, de olhos no telemóvel, aproveitam a pausa. Entre boinas alentejanas e turbantes, cruzam-se culturas.
Saimon, de 19 anos, natural do Nepal, de ‘sweat’ e calças escuras, a condizer com as sapatilhas da moda, escolheu o curso de técnico de restaurante/bar por uma razão simples: “Toda a gente come, não é?”.
Para o jovem, este é “um bom curso para trabalhar” e onde se aprende a “fazer muitos ‘cocktails'”, entre outras coisas.
Quando chegou a Portugal, em 2019, sabia apenas contar em português: “um, dois, três”, exemplifica, com a ajuda das mãos.
Sete anos depois, apesar de ainda sentir dificuldades na língua, está a terminar o curso, embora sem certezas sobre o futuro: “Não sei se fico ou não em Odemira”.
Já Khusi, de 18 anos, também nepalesa, mostra outro desembaraço na língua portuguesa e, logo no início da conversa, de sorriso aberto, diz gostar da comida portuguesa e do contacto com clientes: “Gosto de fazer serviço com portugueses, são muito simpáticos”, conta.
Entre o “bacalhau à Brás ou [a] carne de porco à alentejana”, os seus pratos preferidos, a aluna do curso técnico de restaurante/bar reconhece que o maior desafio foi aprender português.
Em declarações à Lusa, o presidente do conselho de administração da escola, Paulo Barros Trindade, afiança que as “taxas de empregabilidade [são] elevadíssimas”, chegando “muito perto dos 100%” em alguns cursos, sobretudo na área da hotelaria e restauração.
Resultados que exigem, contudo, “um esforço maior” do corpo docente: “Os professores de língua portuguesa [fazem] um trabalho muito mais exaustivo com os alunos para, logo no primeiro ano, começarem a dominar a língua”.
A escola aposta também na ligação ao tecido empresarial da região, tentando que os alunos “visitem os locais de estágio” e “conheçam a realidade empresarial”, complementa Ana Paula Pereira.
Arshpreet Kaur, de 18 anos, natural da Índia, a frequentar o 3.º ano do curso técnico de cozinha e pastelaria, destaca as aprendizagens: “Aprendi muitas coisas, as pessoas são simpáticas e ajudam muito. Aprendi português, aprendi a fazer comidas portuguesas”.
Na cozinha da escola, que funciona como sala de aula, o grupo de 15 alunos, onde está Arshpreet, prepara pratos nepaleses e indianos, mas é a gastronomia portuguesa que mais a conquista.
“Adoro bacalhau à Brás. O meu professor diz que sou mais portuguesa do que indiana”, brinca a jovem, que pensa prosseguir os estudos no ensino superior. Desta experiência, relata, leva “confiança e muita aprendizagem” para o futuro profissional.
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