
Maputo, 27 abr 2026 (Lusa) – A crise de combustíveis em Maputo está a impor sacrifícios diários a condutores, passageiros e transportadores, forçando muitos a deixarem os carros estacionados e a recorrerem ao transporte público como alternativa para manter a rotina diária.
A meio da tarde, Edmilson Mucavele aguarda num das terminais de transporte público na azáfama de Maputo por mais um transporte, o segundo de três necessários para chegar a casa. Apesar de ter viatura própria, a crise de combustíveis que há quase duas semanas afeta o país obrigou-o a deixá-la parada em casa e adaptar-se a uma rotina feita de esperas e sucessivas ligações nos transportes públicos.
“Está a ser um bocado constrangedor. Deixei o meu carro em casa por falta de combustível”, admite à Lusa, mantendo o olhar atento aos transportes semicoletivos que, de tempos a tempos, entram e saem do terminal, à espera daquele que, menos cheio, o consiga levar até ao seu destino.
Maputo tem vivido dias de caos em várias ruas, com filas generalizadas de automobilistas que tentam abastecer combustível, com vários dos postos encerrados e outros com reforço policial, embora, entretanto, com ligeiras melhorias na disponibilidade de gasolina e gasóleo.
O cenário, associado à crise provocada pelo conflito no Médio Oriente, tem vindo a alastrar-se a outras províncias do país e o Governo já avisou que, tal como os países vizinhos, o preço dos combustíveis vai ter de aumentar, devido aos custos associados à importação, que dispararam devido ao conflito.
O dilema não afeta apenas os transportadores, uma vez que, nas paragens um pouco por toda a capital do país, centenas de pessoas aguardam pela sua vez de conseguir transporte para começar o dia, numa crise que revela impactos diretos na mobilidade, na economia local e na rotina da população.
Nas últimas duas semanas, Edmilson conta que percorreu quase todas as gasolineiras do centro da capital à procura de combustível, mas, sem sucesso, acabou por abandonar a busca: “Agora estou mesmo à espera de ‘chapa’ [transporte semicoletivo] e, quando aparecem, vêm muito cheios”.
“Existem chapas que param no meio da viagem por falta de combustível e temos de fazer ligações. Está a criar um grande transtorno, não está a ser muito fácil”, lamenta.
Antes habituado ao conforto do seu automóvel, vê-se agora obrigado a enfrentar diariamente a sobrelotação dos chapas, numa rotina que o expõe ao desconforto e chega a sujar-lhe a roupa.
O problema atinge igualmente Idélcio Castiano, que viu, há cerca de duas semanas, a sua habitual boleia do serviço ser substituída por uma luta diária com os transportes públicos, devido à falta de combustíveis.
“Nas últimas duas semanas, a solução tem sido recorrer ao transporte semicoletivo; não há outra alternativa”, conta, referindo-se com preocupação à escassez de viaturas, “sobretudo nas primeiras horas da manhã e ao final do dia”.
Segundo Idélcio Castiano, o cenário dos últimos dias nas paragens de transportes transformou-se num verdadeiro “caos”, marcado por atrasos frequentes na chegada aos destinos e por um peso acrescido no bolso, devido às sucessivas ligações que é obrigado a fazer.
“Anteriormente a esta hora os carros andavam meio-vazios, mas, nas últimas duas semanas, quase o dia todo é um caos”, observa.
Já Pedro Zimba limita-se a pedir providências “a quem é de direito”, para que os moçambicanos “não venham a sofrer”, numa altura em que, segundo afirma, deslocar-se tornou-se cada vez mais difícil, “primeiro porque as estradas estão intransitáveis”, uma situação que se agrava com a crise de combustíveis.
“Já estamos mesmo a passar mal com essa situação, reclamamos dia após dia. Na verdade, tudo, só deixamos nas mãos de Deus. Só Deus para solucionar problemas deste país”, desabafa Pedro Zimba, no interior de um chapa, onde espera seguir viagem.
Pedro admite que o cenário é hoje “constrangedor”, sobretudo pelos atrasos recorrentes que tem enfrentado para chegar ao local de trabalho.
Almiro Cumbana, condutor de transporte de passageiros na cidade da Matola, arredores de Maputo, há 10 anos, admite estar muito difícil trabalhar pela recorrente procura noturna ao combustível.
“Ultimamente temos de trabalhar de dia e de noite irmos formar bicha [fila] para podermos ter combustível”, lamenta, assinalando que a situação se estende por cerca de duas semanas.
O transportador aponta como a única solução plausível a disponibilidade do combustível, para que tudo volte à normalidade.
“Aumentar o preço não vai mudar nada, só vai piorar a situação”, defende.
Também Elder Mchave, motorista há cinco anos, admite a precariedade da situação, marcada pela busca incessante pelo combustível.
“Nós passamos dificuldades, não conseguimos trabalhar durante o dia. Se calhar só conseguimos uns cinco litros, algumas bombas só aceitam abastecer uns mil meticais [13,4 euros]”, conta, explicando que, em alguns casos, os condutores são obrigados a deixar as viaturas estacionadas e deslocar-se aos postos com bidões, na esperança de conseguir algum combustível.
“Se não abastecermos, não conseguirmos trabalhar no dia e acaba por nos prejudicar porque não conseguimos fechar as contas e alguns carros acabam parados no meio da via por causa do combustível”, diz.
Com a iminente subida dos preços dos combustíveis, anunciada pelo Governo para o início de maio, Elder antecipa um cenário “ainda pior” para todos.
“Não vai facilitar a vida de ninguém, porque todos dependemos do combustível e se o combustível sobe somos obrigados a aumentar a tarifa”, conta.
Face a esta crise, o Governo pediu, na semana passada, a racionalização de combustíveis disponíveis, através do uso de transportes públicos e de trabalho remoto, apelando à preparação para uma eventual atualização dos preços destes produtos em maio.
*** Lina Cebola (texto e fotos), Fernando Cumaio (vídeo), da agência Lusa ***
LCE // VM
Lusa/Fim
