
Luanda, 10 jul 2023 (Lusa) – A queda do kwanza, que desvalorizou 60% desde o inÃcio do ano, apanhou desprevenidas muitas empresas que operam em Angola e que admitem “congelamento” de investimentos, agravando o desemprego e as condições de vida da população.
“Obviamente, como uma empresa com necessidade de fatores de produção exclusivamente importados e com um elevado número de expatriados, a desvalorização acentuada e abrupta do Kwanza impacta muito negativamente na atividade da Novagrolider”, disse à Lusa o diretor financeiro (CFO) deste grupo, um dos maiores projetos agroindustriais angolanos, que emprega 4.000 pessoas.
Para António Nogueira, a situação reflete-se no congelamento dos investimentos em curso e eventual redução do número de funcionários, bem como recurso à s divisas próprias, uma vez que a Novagrolider, sendo uma empresa exportadora — é a maior produtora de banana em Angola e exporta para vários paÃses incluindo Portugal – consegue gerar divisas.
O responsável sublinha ainda que estes fatores influenciam os preços de venda dos produtos e teme que o arrastar deste cenário agrave a pobreza e o desemprego.
“A não inflexão do estado atual, seja na disponibilidade seja no preço das divisas, provocará uma quebra no investimento dos agentes económicos nacionais com graves consequências a nÃvel no emprego e dos preços de todos os produtos e consequente deterioração das condições de vida da população em geral”, realçou.
Também o presidente executivo (CEO) da Refriango, uma das maiores empresas de bebidas angolanas, disse que a desvalorização repentina da moeda angolana “apanhou todos de surpresa”, obrigando a reavaliar estratégias.
“Estamos atualmente na fase de ajustes, para compreender os impactos deste cenário económico mais desafiador”, disse à Lusa Diogo Caldas, acrescentando que a Refriango está a avaliar diferentes estratégias para minimizar os impactos negativos e adaptar-se à nova situação económica.
“Estamos a tentar implementar medidas rápidas e eficazes para garantir a continuidade e a sustentabilidade financeira”, declarou.
“Estamos a enfrentar muitas dificuldades”, concorda António Leal, diretor geral da Score Distribuição, dona dos supermercados Deskontão.
Entre estas, destacou os “impactos significativos ao nÃvel da tesouraria, resultante das liquidações de CDI [Créditos Documentários de Importação, funcionam como garantias de pagamento] de mercadorias já recebidas e vendidas com diferenças cambiais negativas muito significativas”, bem como retração do consumo, devido ao aumento significativo dos preços dos produtos.
Quanto à s medidas para fazer face este cenário, “são essencialmente de contenção, redução das importações e corte nos custos”, complementou António Leal.
A consultora BMI, do grupo Fitch Solutions, reviu hoje em baixa a previsão de crescimento para Angola este ano, antecipando um regresso à recessão, essencialmente devido à desvalorização do kwanza e ao aumento da inflação.
“Prevemos que o PIB real vá contrair-se 0,7% em 2023, depois de uma expansão de 3,1% em 2022, o que é uma revisão em baixa face à nossa anterior previsão de 1,8%”, lê-se numa nota enviada aos investidores, e a que a Lusa teve acesso.
Na revisão das perspetivas de evolução da economia de Angola, os analistas explicam que “esta revisão reflete largamente o impacto da forte desvalorização do kwanza em junho”, e acrescentam que “o aumento da inflação vai impactar no consumo das famÃlias e no investimento das empresas, o que coloca ainda mais pressão descendente na atividade económica do setor petrolÃfero”.
Entretanto, o Banco Nacional de Angola antecipou para sexta-feira a reunião do Comité de PolÃtica Monetária (CPM), inicialmente prevista para 17 e 18 de julho, sem revelar os motivos da alteração, indicando que se mantêm na agenda de trabalhos a análise da evolução dos indicadores macroeconómicos e análise dos mercados monetário e cambial.
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RCR (MBA) // VM
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