Ébola: Ataques a centros de tratamento dificultam resposta ao surto no RDCongo

Kinshasa, 24 mai 2026 (Lusa) – Os ataques incendiários contra centros de tratamento do Ébola no leste da República Democrática do Congo (RDCongo) estão entre as dificuldades que as autoridades enfrentam para conter o surto da doença infecciosa, noticia a Associated Press (AP) citando uma ONG.

O incêndio de dois centros de tratamento por habitantes das zonas de Rwampara e Mongbwalu, que registam o maior número de casos de Ébola, doença declarada emergência de saúde pública mundial, demonstra como a reação negativa em algumas comunidades está a complicar a resposta das autoridades, numa região que enfrenta vários desafios.

“Ceticismo e raiva” é o que estes ataques podem refletir, segundo Colin Thomas-Jensen, diretor da ONG Aurora Humanitarian Initiative.

Thomas-Jensen referiu que esses sentimentos das pessoas no leste da RDCongo estão relacionados com a forma como a região tem sido tratada: anos de violência por parte de grupos rebeldes ligados a forças estrangeiras e a incapacidade do seu Governo e das forças internacionais de manutenção da paz em protegê-las.

Outra fonte de raiva tem sido os protocolos rigorosos em torno do enterro de vítimas suspeitas de Ébola, dos quais as autoridades estão a assumir o controlo sempre que possível para impedir uma maior propagação da doença quando as famílias preparam os corpos e as pessoas se reúnem para um funeral.

O primeiro incêndio de um centro de tratamento do Ébola em Rwampara foi perpetrado por um grupo de jovens locais que tentavam recuperar o corpo de um amigo falecido, segundo testemunhas e a polícia. As testemunhas afirmaram que a multidão acusou o grupo de ajuda humanitária estrangeiro que operava no local de mentir sobre o Ébola.

As autoridades do nordeste da RDCongo proibiram agora as vigílias fúnebres e as reuniões com mais de 50 pessoas, numa tentativa de conter a propagação da doença, e soldados armados e agentes da polícia estão a vigiar alguns enterros realizados por trabalhadores humanitários.

As crises de longa data no leste da RDCongo, que tornaram a região palco de um dos piores desastres humanitários do mundo, afetam a resposta a um tipo raro de Ébola por vários motivos.

Por um lado, a região enfrenta uma ameaça constante de violência. O leste da RDCongo tem sido palco de violência por parte de dezenas de grupos rebeldes distintos há anos, alguns deles com ligações a países estrangeiros ou ao Estado Islâmico(EI).

Por outro lado, os rebeldes do grupo armado Movimento 23 de Março (M23), alegadamente apoiados pelo Ruanda, controlam partes da região e embora o Governo da RDCongo ainda controle em grande parte a província de Ituri, no nordeste, que é o epicentro do surto de Ébola, esse controlo é frágil.

A RDCongo é regularmente afetada por epidemias do vírus Ébola, que se transmite através do contacto direto com sangue ou outros fluidos corporais de pessoas infetadas ou animais infetados e provoca febre hemorrágica grave, dores musculares, fraqueza, dores de cabeça, irritação da garganta, febre, vómitos, diarreia e hemorragias internas.

A epidemia, declarada em 15 de maio, corresponde a uma nova estirpe do Ébola, para a qual não existe vacina e cuja taxa de mortalidade varia entre 30% e 50%, segundo a OMS.

O Ébola provoca uma febre hemorrágica mortal, mas o vírus, que causou mais de 15 mil mortes em África nos últimos 50 anos, é menos contagioso do que a covid-19 ou o sarampo.

Na ausência de vacina e de tratamento aprovado contra a estirpe Bundibugyo do vírus, responsável pela epidemia atual, as diretrizes de contenção assentam essencialmente no cumprimento das medidas de barreira e na deteção rápida dos casos.

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