
Lisboa, 15 out 2025 (Lusa) — Por cada homem vÃtima de violência que pede ajuda, estima-se que haja pelo menos outros dois que não denunciam a situação, disse à Lusa o psicólogo e assessor da direção da Associação Portuguesa de Apoio à VÃtima (APAV).
As estatÃsticas mais recentes da APAV sobre vÃtimas no masculino, relativas ao perÃodo entre 2022 e 2024, dão conta que a associação apoiou 10.261 pessoas, o que representa um aumento de 23% no decorrer destes três anos.
Em entrevista à agência Lusa, Daniel Cotrim explicou que esta evolução tem a ver com uma maior consciencialização para o tema da violência, mas lembrou que “há sempre o outro lado da moeda”.
“Por cada uma destas vÃtimas apoiadas, destas 10.200 vÃtimas do sexo masculinas apoiadas, nós sabemos, porque é o que os estudos de incidência e prevalência nos dizem, que há sempre pelo menos duas pessoas, dois homens, que não vão denunciar a situação”, revelou.
Significa que o número de vÃtimas masculinas a pedir ajuda à APAV poderia ultrapassar as 30.700.
“Temos sempre a noção de que a realidade é muito superior à quela que nós vemos através dos números que nos são apresentados através dos pedidos de ajuda que nos chegam”, afirmou, apontando que, por esse motivo, “é sempre complicado” afirmar que a violência está a aumentar.
Segundo o responsável, esta dificuldade em pedir ajuda tem também a ver com a “ideia profundamente estereotipada” e “cheia de preconceitos” que a sociedade ainda tem sobre a condição de vÃtima, em que “vÃtimas são as mulheres” e a “palavra vÃtima está muito conotada, de forma errada, com uma ideia de fragilidade e vulnerabilidade”.
“O que a sociedade percebe é que os homens não são frágeis nem são assim tão vulneráveis e o que estes dados nos vêm mostrar é exatamente o contrário disto, ou seja, os homens são tão vulneráveis a situações de vitimação como as mulheres, portanto não é uma questão de género”, salientou.
Por outro lado, explicou que a vergonha e o medo do julgamento de terceiros também dificultam falar sobre violência, o que, defendeu, remete para as questões da masculinidade e do que é ou não é ser-se homem.
Apontou que os três crimes mais denunciados à APAV remetem “para questões de fragilidade e de vulnerabilidade”, desde logo violência doméstica, com 11.906 crimes denunciados, mas também crimes de ofensa à integridade fÃsica (885) e crimes de ameaça/coação (731).
Por outro lado, 36,6% das vÃtimas masculinas que pediram ajuda à APAV foram alvo de violência continuada, um dado explicado pelo facto de “a grande maioria dos pedidos de ajuda de homens acontecerem no âmbito da violência doméstica” e de a “violência doméstica ser um crime continuado”.
Daniel Cotrim explicou que, no caso da violência doméstica, “a escalada da violência é muito rápida”, com casos de homicÃdios, e que é esse ciclo de violência que está por trás da demora na apresentação de denúncia, havendo registo de 19,8% de vÃtimas que demoram entre dois e seis anos e 10,9% que precisa de doze anos ou mais.
Associada à escalada de violência vem também a vergonha: “não é natural na cabeça dos homens uma mulher ser agressora, portanto um homem tem a capacidade alegadamente de se defender, mas isto é o mito, é o estereótipo”, sublinhou.
A mesma ideia de masculinidade explica que o primeiro contacto destas vÃtimas com o sistema de proteção seja através da APAV e não com a polÃcia ou com um tribunal, tendo Daniel Cotrim admitido que o sistema “não é condescendente com os homens” e ainda tem “muitos preconceitos à mistura”.
Para o responsável, o trabalho para o futuro tem de continuar a passar pela educação e pela prevenção, investindo na igualdade de género nas escolas e falando sobre o que são os papéis dos homens e das mulheres, de como eles se complementam, ao mesmo tempo que é preciso encarar “a figura masculina como vÃtima e olhar para isto de forma perfeitamente natural” e “desmontar as ideias erradas da masculinidade tóxica”.
Para Daniel Cotrim, este é um trabalho que tem vindo a ser feito, mas que tem de ser continuado, salientando que os discursos de misoginia estão cada vez mais presentes e alertando para os jovens adolescentes que têm “acesso direto a este tipo de discurso”.
SV // CMP
Lusa/Fim



