
Lisboa, 20 abr (Lusa) — A edição dos Dias da Música pode ser a última possibilidade de se escutar a Orquestra de Câmara Portuguesa (OCP) e o seu projeto da Jovem Orquestra Portuguesa (JOP), alertou o maestro titular e fundador, Pedro Carneiro.
A JOP, sob a direção de Pedro Carneiro, toca no próximo sábado, no Centro Cultural de Belém (CCB), em Lisboa, o âmbito do Festival Dias da Música, destinado aos jovens, e que antecede os quatro Dias da Música, a decorrer de 26 a 29 deste mês.
A OCP, sob a batuta de Carneiro, abre os Dias da Música, na quinta-feira da próxima semana, com o coro Voces Caelestes
“Este concerto da JOP, ao que tudo indica, será o último concerto da JOP, e o da OCP também parece que será o último”, disse o maestro à Lusa, justificando esta suposição pelo facto de as orquestras não terem sido abrangidas, segundo os resultados provisórios do Programa de Apoio Sustentado à s Artes (2018-2021), e não terem tido qualquer contacto do secretário de Estado da Cultura.
O maestro acusou o Governo de “um jogo de demagogia muito impressionante”, ao ter anunciado um reforço de 2,2 milhões de euros por ano, das verbas de apoio à s artes, que, distribuÃdos pelas 43 entidades que passaram a aceder a apoios, “deve dar pouco mais de 50 mil de euros [anuais] a cada uma”.
“Estes Dias da Música, para nós, são assim uma espécie de ‘ante luto’ de onze anos de atividade, que aprece que vão ficar por aqui”, declarou o maestro à Lusa.
O maestro considerou a situação “irónica”, pois em setembro passado, numa reportagem da RTP-Antena 2, o atual secretário de Estado da Cultura, Miguel Honrado, “disse que seria impensável que a OCP ou a JOP não tivessem subsÃdio [estatal], tal é o mérito que lhes reconhece”.
Segundo o músico, Portugal e a Roménia eram, até 2014, os únicos Estados da União Europeia sem uma orquestra nacional de jovens, sem apoio sustentado, “ora, a partir de agora, Portugal será o único”, pois a Roménia criou um organismo para a Orquestra Nacional Jovem da Roménia, que tem diferentes orquestras, que atualmente estão a celebrar por todo o mundo o centenário da unificação do paÃs.
A não atribuição de apoio à JOP levou já a cancelar uma digressão a Macau e à China, este ano, e, “pela mesma razão, a digressão, em 2019, à Roménia e à Alemanha, não se vai realizar”.
Face à falta de notÃcias da Direção-Geral das Artes (DGArtes), entidade responsável pelos concursos, Pedro Carneiro afirmou: “Nós morremos a 31 de dezembro de 2017, porque foi aà que acabou o apoio”.
“A partir daqui não sei que dizer”, desabafou o maestro, realçando que as atuações previstas “vão ser dois belÃssimos concertos, pois ambas as orquestras têm um excelente nÃvel e são conhecidas pela energia e pela vitalidade, pela espontaneidade”, acrescentando: “Nós trouxemos uma lufada de ar fresco há cerca de uma década à cena da música clássica/erudita em Portugal”.
O maestro fez questão de salientar “o apoio das diversas administrações do Centro Cultural de Belém”, que acolheram os projetos como orquestras-residentes, e só vê uma reviravolta nesta situação se “o ministro da Cultura e o secretário de Estado quiserem fazer algum anúncio especial relativamente ao dossiê que têm em mãos desde maio 2016”, e que foi já apresentado aos anteriores dois Governos.
Este dossiê apresenta “uma proposta de apoio interministerial, que ia permitir que estes projetos se pudessem realizar de forma sustentada e continuarmos a fazer o serviço público que temos feito até agora”, esclareceu. De outra forma, considerou o maestro, “não há alternativa, pois não há meios para continuar”.
A OCP foi criada em 2007, dando atenção a novos solistas e compositores, desenvolvendo projetos de formação e de inclusão, com instituições de solidariedade social, e integrando o Grupo de Trabalho para as Necessidades Especiais na Ciência, Tecnologia e Ensino Superior.
Iniciou uma carreira internacional em 2010, com a estreia no City of London Festival. Criou a JOP, membro da Federação Europeia de Jovens Orquestras, e estabeleceu parcerias com a Guildhall School of Music and Drama, de Londres.
A OCP – Associação Cultural concorreu ao Programa de Apoio Sustentado, na área de Música, tendo solicitado um montante global aproximado a 1,599 milhões de euros, a repartir em financiamentos anuais de cerca de 399 mil euros, de 2018 a 2021.
O júri, em ata a que a Lusa teve acesso, considerou que a candidatura apresentou “um programa de atividades de qualidade, consequente com as linhas que têm norteado a sua atividade”, “num percurso de constante crescimento”, “propondo um programa vastÃssimo, com projetos de relevância nacional e europeia”, tanto da OCP como da JOP. Destacou ainda objetivos especÃficos da área artÃstica, “bem como de serviço público”, com o projeto OCP Solidária.
A penalização residiu sobretudo no facto de a OCP se ter candidatado ao programa quadrienal, e apenas ter calendarizado atividades para o ano de 2018.
Os concursos do Programa de Apoio Sustentado da DGArtes, para os anos de 2018-2021, partiram com um montante global disponÃvel de 64,5 milhões de euros, em outubro, subiram aos 72,5 milhões, em março, perante a contestação no setor, e entraram em abril com um total de 81,5 milhões de euros, depois de o Governo ter anunciado novo reforço, que permitiu alargar a possibilidade de apoio a 183 candidaturas, contra as 140 iniciais.
O Programa de Apoio Sustentado à s Artes 2018-2021 envolve seis áreas artÃsticas – circo contemporâneo e artes de rua, dança, artes visuais, cruzamentos disciplinares, música e teatro.
De acordo com o calendário da DGArtes, os resultados definitivos deverão ser conhecidos até meados de maio, nas diferentes disciplinas. Para já, são apenas conhecidos os resultados definitivos nas áreas de artes plásticas, dança e circo contemporâneo e artes de rua.
NL // MAG
Lusa/Fim



