
Lisboa, 03 abr (Lusa) — Perto de 50 estruturas teatrais e 140 artistas subscrevem uma carta aberta ao primeiro-ministro na qual solicitam uma audiência “com caráter de urgência” a António Costa.
Na carta, a que a agência Lusa teve acesso, os subscritores consideram “fundamental” que seja inscrita a decisão de, ainda este ano, “haver um reforço [de verbas] que evite a destruição de estruturas candidatas e não apoiadas ou mesmo excluÃdas sob critérios que urge rever”.
“Acreditam os que assinam que o que está em causa não é apenas a sobrevivência das estruturas de criação artÃstica profissional, mas sim a aposta num paÃs mais desenvolvido, com cidadãos que possuam um maior espÃrito crÃtico e sentido democrático”, lê-se na missiva.
A comissão informal foi constituÃda na sequência de uma reunião realizada no sábado, em Lisboa, em que participaram muitas personalidades ligadas ao teatro.
A reunião teve como objetivo discutir o modelo de apoio às artes e decidir as medidas a tomar pelas estruturas teatrais e atores na luta contra os resultados provisórios do concurso plurianual de apoio ao teatro.
Albano Jerónimo, Ana Brandão, André Reis, Bruno Bravo, Carla Maciel, Carlos Avilez, Carlos J. Pessoa, Cláudia Lucas Chéu, Cristina Carvalhal, Diogo Infante, Isabel Abreu, João Brites, João Mota, Jorge Andrade, Jorge Silva, José Peixoto, Miguel Castro Caldas, São José Lapa, Tiago Guedes e VÃtor Rua contam-se entre os nomes que integram a comissão.
“Somos profissionais da cultura – artistas, estruturas, produtores, técnicos, programadores – e gostarÃamos de ver o desenvolvimento das artes em Portugal como eixo insubstituÃvel de cidadania e de qualificação do paÃs”, referem os subscritores, sublinhando que a reformulação do apoio público à s artes culminou num processo que exclui algumas das mais marcantes estruturas do panorama artÃstico e cultural nacional.
Para a comissão, o novo modelo de apoio à s artes diminui a ação de muitas outras estruturas, “destruindo percursos de décadas – de criação artÃstica, de construção de públicos, de vÃnculos laborais e de investimento público nesses projetos”.
O sistema que este Governo impôs na cultura “falhou por completo e de forma transversal, fragilizando ainda mais o setor artÃstico”.
Para o grupo, o investimento público continua a ser “largamente insuficiente” e não permite obter os “objetivos mÃnimos”.
“As polÃticas não refletem o território que pretendem estruturar nem as estruturas que se propõem apoiar”, considera a comissão, para quem os instrumentos de gestão são “ineficazes e revelam desconhecimento quanto à s especificidades da atividade artÃstica”.
“Estamos certos de que é um momento histórico. Resta perceber se será recordado como o momento em que este Governo desistiu da cultura e assumiu como definitivo um modelo que está a destruir muito do que foi construÃdo, ou como o momento em que houve disponibilidade e coragem para se dotar a cultura nacional de instrumentos que evitem este estado de perda permanente, dando inÃcio a um processo de reformulação do modelo de apoio à s artes, em verdadeiro diálogo com os diferentes agentes culturais”, sustentam.
A Bruxa Teatro, A Escola da Noite, Artistas Unidos, Cão Solteiro, Centro Dramático de Évora (CENDREV), Chapitô, Companhia Mascarenhas-Martins, Espaço das Aguncheiras, Teatro Aberto, Teatro dos Aloés, Teatro do Elétrico, Teatro Meridional, Teatro Experimental de Cascais, Teatro Experimental do Porto, O Bando, Teatro da Comuna, Teatro Griot e Primeiros Sintomas contam-se entre as companhias que subscrevem a missiva.
O Governo anunciou o reforço, para 72,5 milhões de euros, do montante disponÃvel até 2021, do Programa de Apoio Sustentado à s artes, mais dois milhões de euros por ano, a aplicar nas seis modalidades dos concursos: circo contemporâneo e artes de rua, dança, artes visuais, cruzamentos disciplinares, música e teatro.
Segundo números da DGArtes, este ano, no total das seis modalidades, foram admitidas a concurso 242 das 250 candidaturas apresentadas. Os resultados provisórios apontam para a concessão de apoio a 140 companhias e projetos.
Sem financiamento, de acordo com estes resultados, ficaram companhias como o Teatro Experimental do Porto, o Teatro Experimental de Cascais, as únicas estruturas profissionais de Évora (Centro Dramático de Évora) e de Coimbra (Escola da Noite e O Teatrão), além de projetos como a Orquestra de Câmara Portuguesa, a Bienal de Cerveira e o Chapitô.
Estes dados deram origem a contestação no setor, e levaram o PCP e o Bloco de Esquerda a pedir a audição, com caráter de urgência, do ministro da Cultura e da diretora-geral das Artes, em comissão parlamentar.
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