
Lisboa, 16 nov 2024 (Lusa) — Cerca de meia centena de pessoas manifestaram-se hoje em Lisboa pelos direitos do povo moçambicano e contra uma alegada fraude nas eleições de outubro, defendendo que “o momento da revolução de Moçambique chegou”.
“Nenhum tirano nos irá escravizar, pedra a pedra construÃmos um novo dia”, foi uma das muitas palavras de ordem gritadas pelos manifestantes que hoje pintaram a praça do Marquês de Pombal, em Lisboa, com as cores da bandeira de Moçambique.
Depois de ter juntado dezenas de pessoas há cerca de uma semana, a instabilidade que se vive em Moçambique desde as eleições de outubro, e após a Comissão Nacional de Eleições (CNE) moçambicana anunciar a vitória da Frelimo, motivou um novo protesto em Lisboa.
“Estamos a contestar as fraudes eleitorais, que são várias, infelizmente”, explicou à Lusa um dos elementos da organização, Nelson Melo.
Contando que tem acompanhado a situação no seu paÃs sobretudo através das redes sociais devido à “censura nos media”, Nelson Melo manifestou a preocupação constante com os seus amigos e familiares e alertou que “as pessoas estão em perigo, mas é o futuro do paÃs que está em jogo”.
Hércio Chiziane vive em Portugal há cerca de 10 anos, mas fez questão de participar na manifestação rodeado de familiares e amigos. De Moçambique — contou à Lusa — nem todos os dias recebe notÃcias da famÃlia.
“As pessoas estão cheias de medo, mas isso não faz com que não saiam à rua. Isto é uma luta pela liberdade, pela libertação de um povo”, afirmou.
Para Hércio Chiziane, o paÃs está a viver um momento histórico, em que se abriu uma “atmosfera para a revolução”, após o que considera terem sido décadas de fraude eleitoral.
“É muito claro que o momento de revolução de Moçambique chegou. Não há como este Governo continuar no poder”, defendeu.
Segundo a CNE, o candidato presidencial Venâncio Mondlane ficou em segundo lugar, com 20,32%, mas este afirmou não reconhecer os resultados, que ainda têm de ser validados e proclamados pelo Conselho Constitucional, que não tem prazos para esse efeito e ainda está a analisar o contencioso.
Após protestos nas ruas que paralisaram o paÃs nos dias 21, 24 e 25 de outubro, Mondlane convocou novamente a população para uma paralisação geral de sete dias, desde 31 de outubro, com protestos nacionais e uma manifestação concentrada em Maputo na quinta-feira, 07 de novembro, que provocou o caos na capital, com diversas barricadas, pneus em chamas e disparos de tiros e gás lacrimogéneo pela polÃcia, durante todo o dia, para dispersar.
“Os 20% pararam o paÃs, estão além-fronteira a fazer barulho. O mundo parou para ouvir os 20%”, disse outra das manifestantes, Jorema Fernando, contestando a vitória de Daniel Chapo, apoiado pela Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo, no poder), com 70,67% dos votos.
Em Portugal há pouco mais de dois anos, Jorema Fernando olha com tristeza para a situação em Moçambique: “É devastador, estamos a viver um caos”. No entanto, diz nunca ter visto os seus compatriotas tão unidos “em busca da justiça eleitoral”.
Antes de iniciarem a marcha em direção à sede da Comunidade dos PaÃses de LÃngua Portuguesa, os cerca de 50 manifestantes fizeram um minuto de silêncio em homenagem à s vÃtimas nas manifestações dos últimos dias.
“Vai haver um tempo para chorarmos os nossos mortos, mas agora não nos vamos calar e não vamos parar”, prometeu Hércio Chiziane.
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