
Luanda, 14 set 2023 (Lusa) — O economista Alves da Rocha disse hoje que as desigualdades sociais em Angola são “aberrantes e indignas” e relevou que entre 2014 e 2021 perderam-se 326 dólares (337 euros) por ano de rendimento médio por habitante no paÃs.
Aludindo aos relatórios da missão do Fundo Monetário Internacional (FMI) e da fundamentação do Orçamento Geral do Estado (OGE) angolano nesse perÃodo de oito anos, o economista sinalizou que entre 2017 e 2021 a perda foi de 315 dólares (293 euros) anuais por cada cidadão.
Os dados de base, retirados das referidas fontes, à s quais se pode juntar as Contas Nacionais, observa Alves da Rocha, apontam para uma “degradação crescente” das condições gerais de vida dos angolanos.
A análise feita pelo também diretor do Centro de Estudos e Investigação CientÃfica da Universidade Católica de Angola (UCAN) foi apresentada no 2.º Ciclo de Debates: O Dividendo da Paz em Angola: Os indicadores económicos, polÃticos e cÃvicos antes de 2002 e agora.
Nesta sessão de debates, promovidos pelo Grupo de Reflexão, Aconselhamento e Debate (GRAD) do Laboratório de Ciências Sociais e Humanidades da UCAN, o economista falou sobre “A Paz e Reconciliação Nacional”.
Angola celebrou este ano, em 04 de abril passado, 21 anos de paz e reconciliação nacional, após o fim do conflito armado em 2002.
Para Alves da Rocha, a paz é um bem público, pertence ao povo e a melhor comemoração da paz é a melhoria das suas condições de vida, “sistematicamente degradados desde há muitos anos a esta parte”.
“Caviar e lagosta — nas opÃparas refeições oferecidas pela burguesia nacional — contrastam com o funje de mistura sem conduto (só de água, sal e gindungo) em mais de 90% das famÃlias angolanos”, afirmou.
O economista vincou que as desigualdades sociais no paÃs “são aberrantes e indignas dos preceitos da nossa Constituição”.
“Devemos ter vergonha do quadro societário desequilibrado existente onde campeia a pobreza, a fome e a marginalização. É indigno comemorar-se os anos de paz com tanta criança nas ruas a pedir um pão para comer”, lamentou.
No entender do economista angolano, a ausência de guerra “é importante e inestimável mesmo”, contudo, a ausência de ações armadas não significa paz, “apenas novas condições para o acontecer do desenvolvimento” e do progresso, “os únicos e determinantes fatores de unidade e reconciliação nacional”.
Segundo Alves da Rocha, no texto apresentado no encontro pela coordenadora do GRAD, Cesaltina Abreu, a ausência de guerra “é um ganho substancial, mas o seu aproveitamento tem sido defeituoso e acintoso” já que não resultou em “melhorias visÃveis nas condições de vida da maioria da população”.
A “intensa dinâmica” de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) entre 2003 e 2008 “(cerca de 10,7% ao ano, podendo ser duplicado em menos de sete anos), um dividendo material efetivo da paz”, realçou, foi canalizada para o processo de acumulação primitiva de capital e de criação de uma burguesia nacional endinheirada”.
Esse, apontou, era o perÃodo propÃcio para se ter operado uma alteração do modelo de distribuição do rendimento nacional a favor do combate contra a pobreza e que teria preparado o paÃs para uma “maior resistência à s intempéries das quedas do preço do petróleo”.
Alves da Rocha defendeu ainda que a reconciliação nacional “só será efetiva” com uma “base económica segura (espalhar-se dentro de critérios de racionalidade, estruturas produtivas e económicas), crescimento sustentável e acesso a oportunidades de enriquecimento”.
DYAS // ANP
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