
Santiago do Cacém, Setúbal, 23 mai 2023 (Lusa) — Cinco profissionais desempregados ganharam temporariamente trabalho e são as ‘estrelas’ de uma peça de teatro, com estreia marcada para sexta-feira em Santiago do Cacém, no distrito de Setúbal, que procura retratar “uma sociedade orientada para a produtividade”.
O espetáculo, que será apresentado em duas sessões, na sexta-feira e no sábado, no Auditório Municipal António Chainho, resulta do projeto Produktivismo, da companhia Mala Voadora que desenvolve em Santiago do Cacém o programa Campilhas Internacional.
As cinco pessoas, que se encontram “num momento de pausa” profissional, foram desafiadas a integrar o projeto e a mostrar “uma visão sobre o mundo do trabalho que transcende o habitual positivismo”.
Através da performance, a companhia de teatro quer dar “mais voz a uma questão que à s vezes é tabu” e que, em muitos casos, é vivida “de uma maneira mais intima [e] mais solitária”, revela a diretora artÃstica, LÃgia Sousa, em declarações à agência Lusa.
Durante seis semanas, de segunda a sexta-feira, “em horário de expediente”, Fátima, Carlos, Paula, Vitória e José, todos desempregados e com idades entre os 30 e os 50 anos, desenvolveram relações e partilharam experiências para “fazer do seu tempo, um projeto de teatro”.
Todos os dias, numa pequena sala da Biblioteca de Santiago do Cacém, os novos atores, recrutados através do Centro de Emprego de Sines, juntaram-se à diretora artÃstica, para fixarem uma estrutura.
A partir “das palavras e das conversas”, transformaram as suas profissões em matéria de espetáculo, realça.
“Nas primeiras semanas contaram as suas experiências profissionais e tentámos coser estes remendos”, conta LÃgia Sousa, enquanto prepara o cenário com poucos adereços para o ensaio do dia, que a Lusa acompanhou.
Em palco, um serralheiro irá´ trabalhar o metal, um auxiliar de saúde irá auxiliar, um repórter irá reportar, uma feirante irá feirar, uma empregada de limpeza irá limpar, utilizando “elementos decorativos” para “martelar com flores” ou “varrer com palmeiras”, explica.
Enquanto aguarda pelo inÃcio do ensaio, Carlos Ledo, 54 anos, confessa à Lusa que vai pisar pela primeira vez o palco, retratando a sua experiência no mundo da comunicação social e da navegação.
“No fundo a peça é o resultado das frases, dos gestos e dos sons da experiência profissional” do grupo, conta, sentado no sofá colocado no meio de uma caixa negra, que também servirá de adereço para a ação.
Enquanto se prepara para ‘vestir’ o papel de auxiliar de saúde, José Costa, 51 anos, a receber o Rendimento Social de Inserção (RSI) há dois anos, diz que não pensou duas vezes quando aceitou participar na experiência, que considera ser gratificante.
No elenco estão três elementos da mesma famÃlia, marido, mulher e cunhada, que partilham, em palco, as experiências profissionais, mas também o desconhecimento pelo mundo da criação teatral.
“Estou a ver isto como uma boa oportunidade. Nunca tinha feito teatro e também nunca pisei um palco. Nas primeiras semanas senti-me nervoso, mas agora cada vez menos”, confessa Diogo Nascimento, serralheiro, de 41 anos, também a receber RSI.
Ao seu lado, a esposa Vitória, 35 anos, também a viver do rendimento, mostra o entusiasmo com o desafio que apelida de “diferente e divertido”, embora garanta que, em casa, o teatro não entra.
“Tudo é difÃcil, mas vamos aprendendo uma coisa nova em cada dia. Em casa, fazemos uma pausa”, afirma Vitória que, em palco, mostra o lado performativo e a experiência como feirante.
Sem tirar os olhos das falas alinhadas nas folhas distribuÃdas momentos antes, os elementos, de pé, espalhados pelo cenário, ensaiam mais uma cena onde se cruzam em palco todas as profissões.
HYN // VAM
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