
Cuito, Angola, 13 set 2025 (Lusa) — A meses de celebrar 50 anos de Independência, Angola vive hoje em paz, mas no coração do Bié um memorial consagrado à s vÃtimas da guerra no Cuito, registou em pedra um passado violento que a nação não esqueceu.
O memorial foi construÃdo em 2003 e ocupa uma área de 75 mil metros quadrados, reunindo os restos mortais de civis e militares caÃdos durante o cerco à cidade do planalto central entre janeiro e outubro de 1993.
No auge do cerco, as vÃtimas iam sendo sepultadas pela cidade, antes de serem dignificadas neste cemitério onde jazem mais de 7.000 corpos exumados, um lugar onde a reconciliação se faz de silêncio e memória.
“Este é um local de honra. Aqui jazem os corpos de soldados, mulheres, jovens, crianças, população civil. Foi o campo santo construÃdo pelo Estado para dignificar os que aqui tombaram”, explicou à Lusa IsaÃas Cristóvão Lucondo, administrador da comuna do Cunje, onde se localiza o memorial, a cerca de quatro quilómetros do centro da Cuito.
Com as forças antigovernamentais da União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA) às portas da cidade e a população encurralada, a batalha tornou-se um dos episódios mais sangrentos da guerra civil angolana, com um cerco que começou em 6 de janeiro de 1993, poucos meses após as eleições de 1992.
Durante o conflito, a cidade ficou praticamente destruÃda. A população escondeu-se como podia, enterrou os mortos junto à s suas casas e enfrentou a fome, a sede e a morte com determinação, tornando-se um sÃmbolo de resistência.
“O Cuito é hoje um sÃmbolo de resistência, mas também de superação”, afirma IsaÃas Cristóvão Lucondo, considerando que o memorial é a prova de que Angola foi capaz de se reconciliar consigo mesma.
No centro do memorial ergue-se uma estátua monumental de uma mãe que carrega nos braços o seu filho morto — imagem de dor e do luto coletivo e homenagem à resistência desta cidade-mártir, onde ainda se veem edifÃcios marcados por buracos de balas. A recuperação urbana tem avançado lentamente, num esforço de reconstrução que se cruza com a vontade de preservar a memória.
No espaço realizam-se cultos ecuménicos e visitas turÃsticas, mas nem tudo está concluÃdo: as salas de exposição continuam escassas em conteúdo museológico e a galeria central, um bloco de betão inaugurada em 2022, apresenta já sinais de desgaste.
O memorial foi construÃdo um ano após a assinatura do memorando de paz de Luena, em 2002, entre as forças do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA) e da UNITA, e abriga uma área tumular com 7.034 campas numeradas, capela, casa museológica, zona escultórica, exposição de armamento pesado e o Museu da Batalha do Cuito.
Na área museológica exibem-se urnas de diferentes tamanhos, usadas nas exumações. Algumas vitrinas exibem objetos pessoais recolhidos nos escombros — documentos de identidade e pedaços de roupa — e fotografias do “antes e depois” da destruição de alguns edifÃcios.
IsaÃas Lucondo recorda o cerco como um momento dramático em que as pessoas eram alvejadas quando saÃam para procurar água e alimentos, sobrevivendo munidos de fé e com o ideal de liberdade.
A batalha do Cuito evitou, segundo o responsável, que a UNITA proclamasse uma “Angola do Sul”. “A cidade era a última linha de defesa. Se caÃsse, terÃamos um paÃs dividido. Mas resistimos”, vincou.
O local onde agora repousam as vÃtimas foi inicialmente um “cemitério informal” improvisado durante o conflito, tendo sido após o fim da guerra organizada a exumação e transferência dos corpos, apenas de um dos lados beligerantes.
“Nunca tivemos aqui, formalmente, representantes da UNITA. Era importante para o processo de reconciliação que este espaço representasse todos os angolanos, porque todos perdemos. Falta-nos mais representação”, admitiu IsaÃas Lucondo.
“O objetivo é que esta história nunca mais se repita e que o Cuito seja sÃmbolo de resistência, mas também de reconciliação nacional” concluiu.
Cinquenta anos após a independência de Angola, a paz está consolidada e o responsável acredita que o paÃs está reconciliado: “A primeira reconciliação começou nos quartéis. Foram os militares que tomaram a decisão de depor as armas e de lá para cá a população aderiu. Hoje o paÃs está reconciliado, existe paz em todo o território, as pessoas andam à vontade de um lado para o outro”.
*** Raquel Rio (texto) e Marcos Focosso (vÃdeo), da agência Lusa ***Â
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