
Lisboa, 20 jan 2026 (Lusa) — Um espetáculo com quatro coreografias que refletem sobre o que é uma “Casa”, desde um porto de abrigo a lugar de conflito, estreia-se na quinta-feira pela Companhia Portuguesa de Bailado Contemporâneo (CPBC), no Capitólio, em Lisboa.
Em palco até domingo, as quatro criações coreográficas assinadas por seis coreógrafos cruzam linguagens e sensibilidades para pensar diferentes formas de habitar, num novo programa que, depois da estreia, em Lisboa, sairá em digressão pelo paÃs.
“São quatro interpretações muito diferentes e interessantes do que é uma casa: tanto pode representar apenas um espaço fÃsico, arquitetónico, um lugar de relação boa ou má, um espaço seguro, ou de conflito, de abrigo, de introspeção ou de solidão”, disse a diretora artÃstica da companhia, Susana Lima, em entrevista à agência Lusa.
Este espetáculo inaugura uma nova linha de atuação da CPBC — a “Rota dos Pequenos Palcos” –, um projeto que propõe aproximar a dança de novos espaços, públicos e contextos, indicou.
Duas das quatro novas criações são “Sopro — A garden full of metal”, de César Fernandes e André Mesquita, “uma criação onde a dança se afirma no instante, entre presença e mistério, gesto e silêncio”, segundo a sinopse, e “Habita-me”, de Miguel Santos, “uma proposta que apresenta corpos libertos de sÃmbolos, entendidos como espaços atravessados pela memória”.
“Luz | Dez”, de Beatriz Mira e Tiago Barreiros, “uma reflexão sobre a lucidez e a urgência do encontro, onde se esbate a fronteira entre o público e o privado”, e “SuÃte”, de Vânia Doutel Vaz, um solo “que constrói o estúdio e o palco como lugares Ãntimos, simultaneamente de conforto e de conflito”, completam o programa.
A diretora artÃstica da CPBC – estrutura que cumpre 30 anos de existência em 2027 — explicou que o projeto é fruto da necessidade de conseguir chegar a alguns palcos de municÃpios onde não têm conseguido apresentar-se por falta de condições técnicas locais.
“Somos uma companhia de tamanho médio, com cerca de uma dezena de bailarinos, e nesta dimensão não chegamos a muitos palcos fora das grandes metrópoles, em zonas onde há espaços de apresentação, mas as condições técnicas não são suficientes para receber espetáculos” como “Amar Amália” (1998), de Vasco Wellenkamp, um dos mais icónicos do repertório do grupo fundado por este coreógrafo.
Devido a essas limitações de “muitos municÃpios”, a diretora artÃstica pensou em criar um formato mais pequeno de espetáculos, com cinco a seis bailarinos, no máximo, e menor dimensão cenográfica.
Para este primeiro programa chamado “Casa”, Susana Lima convidou seis coreógrafos, incluindo duas duplas, todos portugueses, com idades dos vinte aos 40 anos, e ex-membros da companhia — exceto Tiago Barreiros — que criaram quatro coreografias sobre o que seria para eles o conceito de ‘casa’.
“Dei total liberdade aos coreógrafos, mas fui acompanhando com orientações para não se sobreporem as várias perspetivas”, apontou a bailarina, uma das seis fundadoras da CPBC, em 1997.
Questionada sobre o tema escolhido para este novo programa, Susana Lima explicou que surgiu de uma dolorosa situação pessoal: “No momento em que estava a elaborar o plano de atividades da companhia perdi os meus dois pais de seguida, e tive de atravessar com a minha irmã aquele processo horrÃvel de desmontar a casa deles, mexer nas memórias”.
“A certa altura entrei na casa vazia e, mesmo assim, sentia-me em casa. Lembrei-me da minha mãe na cozinha e dos cheiros”, recordações que fizeram a bailarina refletir muito sobre essas questões.
Na mesma altura, em processo de trabalho e imersa nas emoções e recordações da famÃlia, pensou em desafiar seis coreógrafos a refletir sobre o que é uma casa.
“É a minha homenagem aos meus pais”, disse Susana Lima à Lusa, acrescentando que, sobre estas questões complexas, “o que a dança tem de muito bom é ser uma linguagem universal”.
O resultado é um programa de dança contemporânea que transforma a ideia de casa numa metáfora do Ãntimo, do coletivo e do imaginário sempre através do corpo e do movimento.
Depois da estreia em Lisboa, irá seguir-se uma digressão pelo paÃs, com uma confirmação para 06 de março, em Benavente, distrito de Santarém, enquanto decorrem outros contactos e reservas: “A ideia é circular este ano inteiro”, disse a criadora.
Fundada em 1997 por Vasco Wellenkamp e Graça Barroso, a CPBC é uma associação cultural sem fins lucrativos dedicada à criação, formação e promoção da dança contemporânea em Portugal.
Atualmente, a estrutura, com 15 pessoas, tem como principal parceiro a seguradora Allianz, e também a Câmara Municipal de Lisboa, proprietária do espaço que arrendam para a atividade da companhia, na Rua do Açúcar, a Fundação Millennium BCP e a empresa RHmais.
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